Função de Produção e Regra de Contratação
ISCAL-IPL
Objectivo: Compreender como as empresas transformam inputs em output, a diferença entre curto e longo prazo, e as propriedades da função de produção.
Uma unidade produtiva contrata inputs no mercado de fatores e, usando uma tecnologia, transforma-os em output.
São escolhas da empresa:
\[F(K,L)=Q \quad \text{(Função de Produção)}\]
Relação entre quantidade de inputs e quantidade de output que a partir deles se obtém, dada uma tecnologia.
\[CT = C(Q) \quad \text{(Função de Custos)}\]
Relação entre custos de contratação de inputs e quantidade de output produzido, dada uma tecnologia.
Uma função de produção mostra o produto máximo que se pode obter através de combinações alternativas de fatores produtivos, dada uma certa tecnologia.
Pressupõe-se eficiência na utilização de recursos.
Notação: \(F(K,L) = Q\), em que \(K\) é o capital e \(L\) é o trabalho.
O Curto Prazo é um período de tempo suficientemente curto para que a empresa não consiga modificar a quantidade contratada de, pelo menos, um fator produtivo (fator fixo).
Normalmente, considera-se que o Capital (\(K\)) está fixo a curto prazo.
O Longo Prazo é um período de tempo suficientemente longo para que a quantidade contratada de todos os fatores produtivos possa ser alterada.
Longo Prazo e Curto Prazo são apenas conceitos.
A duração necessária depende do sector de atividade.
Um mês pode ser suficiente para substituir toda a maquinaria de uma fábrica têxtil, mas não para o fazer numa fábrica de microcomponentes eletrónicos. O “longo prazo” pode demorar mais nalguns sectores do que noutros.
| Curto Prazo | Longo Prazo | |
|---|---|---|
| Capital (\(K\)) | Fixo (\(\bar{K}\)) | Variável |
| Trabalho (\(L\)) | Variável | Variável |
Nos modelos seguintes, considera-se \(L\) variável e \(K\) fixo a curto prazo: \[F(\bar{K}, L) = f(L) \quad \text{(curva de produto total)}\]
Traduz a forma como a produção se altera (\(\Delta Q\)) quando o input variável se altera (\(\Delta L\)):
\[Pmg = MPL = \frac{\Delta Q}{\Delta L}\]
É a variação do produto total quando se adiciona uma unidade adicional de trabalho, cæteris paribus (mantendo \(K\) constante).
É a quantidade produzida, em média, por cada unidade de trabalho contratada:
\[PMe = APL = \frac{Q}{L}\]
Uma “unidade de trabalho” pode ser uma pessoa, grupos de pessoas, ou uma unidade de tempo (horas, dias…).
| \(L\) | \(F(K,L)\) | \(APL\) | \(MPL\) |
|---|---|---|---|
| 0 | 0 | — | — |
| 1 | 4 | 4.00 | 4 |
| 2 | 14 | 7.00 | 10 |
| 3 | 27 | 9.00 | 13 |
| 4 | 43 | 10.75 | 16 |
| 5 | 58 | 11.60 | 15 |
| 6 | 72 | 12.00 | 14 |
| 7 | 81 | 11.57 | 9 |
| 8 | 86 | 10.75 | 5 |
| 9 | 78 | 8.67 | -8 |
| 10 | 67 | 6.70 | -11 |
| Etapa | Intervalo | Característica |
|---|---|---|
| I | \([0,\, Q_1]\) | \(MPL > APL\); APL crescente |
| II | \([Q_1,\, Q_{max}]\) | \(MPL < APL\); APL decrescente; \(MPL \geq 0\) |
| III | \(Q > Q_{max}\) | \(MPL < 0\); produção decresce |
A Zona Económica de Exploração é a Etapa II — é aqui que se situam as escolhas óptimas de produção.
Funções de produção podem ter formas analíticas muito diversas:
Cada expressão representa um diferente modelo de tecnologia.
Um aumento de \(K\) expande a curva de produto total — efeito análogo ao de um progresso tecnológico.
1. A empresa A tem a função \(Q = K^{0.5}L^{0.5}\) e a empresa B tem \(Q = KL\). A curto prazo (\(K=4\)):
Solução: A (\(K=4\)): \(Q=2L^{0.5}\), \(MPL = L^{-0.5}\) → decresce com \(L\). B (\(K=4\)): \(Q=4L\), \(MPL = 4\) → constante. Resposta: c).
2. Qual das seguintes afirmações sobre a Zona Económica de Exploração é correta?
Solução: b), por definição.
Enunciado: Considere a função de produção \(Q = -KL^3 + 30K^2L^2 + 10L\), com \(K=1\) fixo.
Calcule \(MPL\) e \(APL\). A partir de que valor de \(L\) se verificam rendimentos marginais decrescentes?
Delimite as três etapas do processo produtivo e identifique a Zona Económica de Exploração.
\[MPL = \frac{dQ}{dL} = -3L^2 + 60L + 10\]
\[APL = \frac{Q}{L} = -L^2 + 30L + 10\]
Rendimentos marginais decrescentes quando \(\frac{d(MPL)}{dL} < 0\): \[\frac{d(MPL)}{dL} = -6L + 60 = 0 \Rightarrow L = 10\]
Para \(L > 10\): rendimentos marginais decrescentes.
Etapa I → II: \(MPL = APL\)
\[-3L^2 + 60L + 10 = -L^2 + 30L + 10\] \[-2L^2 + 30L = 0 \Rightarrow L(-2L + 30) = 0 \Rightarrow L = 15\]
Etapa II → III: \(MPL = 0\)
\[-3L^2 + 60L + 10 = 0 \Rightarrow L \approx 20.16\]
| Etapa | Intervalo em \(L\) |
|---|---|
| I | \([0,\; 15[\) |
| II (Zona Econ.) | \([15,\; 20.16]\) |
| III | \(]20.16,\; +\infty[\) |
Objectivo: Identificar as três etapas do processo produtivo, compreender a Zona Económica de Exploração, e derivar a Lei da Contratação como condição óptima do produtor.
A curto prazo, com \(K = \bar{K}\) fixo e \(L\) variável:
\[MPL = \frac{\Delta Q}{\Delta L} \qquad APL = \frac{Q}{L}\]
Relação fundamental entre as duas medidas:
Intervalo: \(L \in [0,\, L_1[\) onde \(L_1\) é o ponto em que \(MPL = APL\)
A empresa não se deve fixar na Etapa I — está a produzir abaixo do óptimo técnico, onde a produtividade média ainda pode aumentar.
Intervalo: \(L \in [L_1,\, L_{max}]\) onde \(MPL = APL\) até \(MPL = 0\)
A Zona Económica de Exploração coincide com a Etapa II: entre o óptimo técnico (\(Q_1\), máximo de \(APL\)) e o máximo de produção (\(Q_{max}\), \(MPL = 0\)).
Intervalo: \(L > L_{max}\) onde \(MPL = 0\)
Nenhuma empresa racional opera na Etapa III — estaria a pagar trabalhadores para reduzir a sua produção.
| Etapa | Intervalo (L) | MPL | APL | Output |
|---|---|---|---|---|
| I | \([0,\; L_1[\) | \(> APL\) | crescente | crescente |
| II (ZEE) | \([L_1,\; L_{max}]\) | \(\geq 0\), \(< APL\) | decrescente | crescente |
| III | \(]L_{max},\; +\infty[\) | \(< 0\) | decrescente | decrescente |
ZEE = Zona Económica de Exploração → Etapa II: onde o produtor racional opera.
| \(L\) | \(Q=F(K,L)\) | \(APL\) | \(MPL\) | Etapa |
|---|---|---|---|---|
| 0 | 0 | — | — | |
| 1 | 4 | 4.00 | 4 | I |
| 2 | 14 | 7.00 | 10 | I |
| 3 | 27 | 9.00 | 13 | I |
| 4 | 43 | 10.75 | 16 | I (máx MPL) |
| 5 | 58 | 11.60 | 15 | I |
| 6 | 72 | 12.00 | 14 | II (óptimo técnico: APL máx) |
| 7 | 81 | 11.57 | 9 | II |
| 8 | 86 | 10.75 | 5 | II |
| 9 | 86 | 9.56 | 0 | II→III (\(Q_{max}\)) |
| 10 | 78 | 7.80 | \(-8\) | III |
Nota: a tabela usa valores arredondados para ilustração; os pontos de fronteira exactos são calculados analiticamente.
A empresa quer maximizar:
\[\Pi = \underbrace{P \times Q}_{\text{Receita Total}} - \underbrace{W \times L}_{\text{Custo Variável}} - \underbrace{r \times \bar{K}}_{\text{Custo Fixo}}\]
A curto prazo, \(K\) é fixo. A variável de controlo é \(L\). Maximizar \(\Pi\) em ordem a \(L\):
\[\frac{\partial \Pi}{\partial L} = 0\]
\[\frac{\partial \Pi}{\partial L} = P \cdot \frac{\partial Q}{\partial L} - W = 0\]
Ou seja: \[P \cdot MPL = W\]
Lei da Contratação: A empresa deve contratar trabalho até ao ponto em que o valor do produto marginal do trabalho (\(P \times MPL\)) iguala o salário (\(W\)).
\[\underbrace{P \times MPL}_{\text{Benefício Marginal de contratar L}} = \underbrace{W}_{\text{Custo Marginal de contratar L}}\]
É a aplicação directa do princípio Cmg = Bmg ao mercado de factores!
Dados: \(Q = K^{0.5}L^{0.5}\), \(\bar{K} = 100\), \(P = 10\), \(W = 20\)
A curto prazo: \(Q = 10L^{0.5}\)
\(MPL = \frac{dQ}{dL} = 5 L^{-0.5}\)
Condição óptima: \(P \cdot MPL = W\)
\[10 \times 5L^{-0.5} = 20\] \[50 L^{-0.5} = 20 \implies L^{0.5} = \frac{50}{20} = 2.5 \implies L^* = 6.25\]
Output óptimo: \(Q^* = 10 \times \sqrt{6.25} = 10 \times 2.5 = 25\)
Da condição óptima \(P \cdot MPL = W\), podemos escrever:
\[MPL = \frac{W}{P}\]
Esta expressão diz-nos que o produto marginal do trabalho na escolha óptima é igual ao salário real \(W/P\).
Trabalhadores mais produtivos (maior \(MPL\)) justificam salários mais elevados — ou, a preços mais altos, justifica-se contratar mais trabalho. A Lei da Contratação liga diretamente produtividade e remuneração.
A curva \(P \cdot MPL\) é decrescente (por causa dos rendimentos marginais decrescentes). A empresa contrata \(L^*\) onde essa curva cruza o salário \(W\).
1. Uma empresa tem \(Q = 4L^{0.5}\), \(P = 5\) e \(W = 10\). Qual a quantidade óptima de trabalho a contratar?
Solução: A \(MPL = 2L^{-0.5}\). Lei da contratação: \(P \cdot MPL = W \Rightarrow 5 \times 2L^{-0.5} = 10 \Rightarrow L^{-0.5} = 1 \Rightarrow L^* = 1\).
2. A empresa está a operar com \(P \cdot MPL > W\). O que deve fazer para maximizar o lucro?
Solução: C Se \(P \cdot MPL > W\), cada trabalhador adicional gera mais receita do que custa. A empresa deve contratar mais até \(P \cdot MPL = W\).
Enunciado: A empresa ALFA tem a função de produção \(Q = -KL^3 + 12L^2 + 60LK^3\), com \(K=1\) fixo. O preço de venda é \(P = 2\) u.m. e o salário unitário é \(W = 168\) u.m.
Calcule \(MPL\) e \(APL\). Delimite as três etapas do processo produtivo.
Aplique a Lei da Contratação para encontrar \(L^*\) e \(Q^*\).
Verifique que \(L^*\) se encontra na Zona Económica de Exploração.
\[MPL = -3L^2 + 24L + 60\] \[APL = -L^2 + 12L + 60\]
Etapa I → II (\(MPL = APL\)): \[-3L^2 + 24L + 60 = -L^2 + 12L + 60 \implies -2L^2 + 12L = 0 \] \[\implies L(L-6)=0\implies L_1 = 6\]
Etapa II → III (\(MPL = 0\)): \[-3L^2 + 24L + 60 = 0 \implies L^2 - 8L - 20 = 0 \implies (L-10)(L+2) = 0\] \[\implies L_{max} = 10\]
| Etapa | Intervalo |
|---|---|
| I | \([0,\; 6[\) |
| II (ZEE) | \([6,\; 10]\) |
| III | \(]10,\; +\infty[\) |
Lei da Contratação: \(P \cdot MPL = W\)
\[2 \times (-3L^2 + 24L + 60) = 168\] \[-3L^2 + 24L + 60 = 84\] \[-3L^2 + 24L - 24 = 0 \implies L^2 - 8L + 8 = 0\] \[L = \frac{8 \pm \sqrt{64 - 32}}{2} = \frac{8 \pm \sqrt{32}}{2} = 4 \pm 2\sqrt{2}\]
\(L_1 = 4 - 2\sqrt{2} \approx 1.17\) (Etapa I — não é óptimo)
\(L_2 = 4 + 2\sqrt{2} \approx 6.83\) (Etapa II ✓)
\(L^* \approx 6.83\); \(Q^* = -(6.83)^3 + 12(6.83)^2 + 60(6.83) \approx 650.5\) u.
\(L^* \approx 6.83 \in [6, 10]\) → está na ZEE ✓
A função de produção \(Q = f(K, L)\) relaciona:
Resposta: b)
A regra ótima de contratação de trabalho numa empresa competitiva é:
Resposta: b) (condição de ótimo: \(VMg_L = w\))
Uma empresa tem \(Q = 10L - 0{,}5L^2\). O preço do produto é P = 2 € e o salário é \(w\) = 6 €/hora.
Resolução:
\(PMg_L = dQ/dL = 10 - L\)
\(P \cdot PMg_L = w\) → \(2(10 - L) = 6\) → \(20 - 2L = 6\)
\(L^* = \mathbf{7}\) horas
\(Q^* = 10(7) - 0{,}5(49) = 70 - 24{,}5 = \mathbf{45{,}5}\) unidades
Microeconomia (Finanças) — ISCAL