O Problema Económico
Regente: Paulo Fagandini
e-mail: pfagandini@iscal.ipl.pt
Dois testes escritos:
| Teste | Peso | Conteúdo | Quando |
|---|---|---|---|
| Teste 1 | 60% | Escolhas Racionais e Teoria do Consumidor | 8ª semana de aulas |
| Teste 2 | 40% | Teoria do Produtor, Equilíbrio e Regulação | Última semana de aulas do semestre |
Cada teste tem nota mínima de 7,00 valores. A média ponderada tem de ser 9,50 ou superior para aprovação. Datas exatas: calendário publicado no Moodle.
Esta é uma cadeira de 5 ECTS. Por convenção, isso implica uma carga de trabalho semanal esperada entre 7,5 e 10 horas.
Temos 3 horas de aula por semana. A diferença, entre 4,5 e 7 horas por semana, é trabalho autónomo: rever a matéria, fazer exercícios, consultar a bibliografia, tirar dúvidas, estudar em grupo.
Não é impossível passar sem esse trabalho autónomo. Mas não conte com isso, e não espere uma boa nota. 🎯
Ao longo do semestre vamos construir o “kit de ferramentas” do economista, peça a peça:
Cada bloco constrói sobre o anterior, exatamente como hoje vamos construir sobre o conceito de excedente. 🧱
Antes de mais: o que é, afinal, esta disciplina que vai estudar este semestre?
Economia é a ciência social que estuda como as pessoas, as empresas e os governos tomam decisões quando os recursos são limitados, e como essas decisões determinam o que se produz, como se produz e para quem.
Duas palavras a reter desta definição: decisões e limitados.
Toda a matéria deste semestre nasce destas duas palavras. 🔍
A definição termina com três perguntas. Qualquer sociedade (ou empresa, ou investidor) enfrenta inevitavelmente:
Estas questões não têm resposta óbvia, e é precisamente aqui que a Economia começa.
A Economia divide-se em dois grandes ramos:
🔬 Microeconomia: estuda as decisões de agentes individuais (um consumidor, uma empresa, um mercado concreto) e como essas decisões interagem: preços, escolhas, concorrência.
🌍 Macroeconomia: estuda a economia como um todo: inflação, desemprego, crescimento do PIB, política monetária e orçamental.
Esta cadeira é de Microeconomia: começamos pela decisão mais pequena que existe, a de um único agente económico. E é por aí que vamos começar já a seguir. 🧭
Acordou. Tem o dia livre. O que vai fazer?
Consegue fazer tudo isto numa manhã?
Tem 4 horas disponíveis.
| Opção | Tempo necessário |
|---|---|
| Ginásio | 2h |
| Estudar | 3h |
| Praia | 4h |
Se escolhe ir à praia, não consegue estudar nem ir ao ginásio.
Tem de escolher, e escolher implica renunciar a alternativas.
O mesmo princípio aplica-se a qualquer recurso escasso.
Tem €1.000 disponíveis. Pode:
Não pode fazer as três coisas com o mesmo €1.000.
Cada euro gasto em férias é um euro que não pode ser investido. 🚫
Recursos: limitados (tempo, dinheiro, matérias-primas…)
Necessidades e desejos: na prática, ilimitados
Esta tensão é universal: afeta pessoas, empresas e governos.
Obriga todos a fazer escolhas. E escolher é o objeto de estudo da Economia.
Voltemos à definição da Parte 0: “recursos limitados”. Agora já temos o nome técnico para essa ideia, escassez.
A Economia é a ciência social que estuda como os agentes económicos tomam decisões em contexto de escassez.
Cada escolha implica renunciar a algo. 🚫
A isto chamamos custo de oportunidade, que veremos em detalhe na Parte 3.
Um investidor tem €100.000 para alocar. Três opções:
| Ativo | Risco | Retorno esperado |
|---|---|---|
| Obrigações do Estado | Baixo | Baixo |
| Ações | Elevado | Potencialmente alto |
| Depósito a prazo | Muito baixo | Muito baixo |
🤔 Que opção escolhe?
Qualquer que seja a escolha: cada euro num ativo é um euro que não está noutro.
Este é o problema económico fundamental em contexto financeiro.
A economia estuda as escolhas porque:
Resposta: b)
Um investidor com capital limitado enfrenta o problema económico porque:
Resposta: d)
Estou a vender notas de €10.
🤔 Qual é o máximo que estariam dispostos a pagar por uma?
Pensem bem antes de responder…
Conseguiam pagar €11 por uma nota de €10?
Não: perderiam €1 de imediato. ❌
E €9,99?
Sim, mas ganhariam apenas €0,01.
A disponibilidade a pagar (DAP) é o valor máximo que estão dispostos a pagar: o ponto em que ficam indiferentes entre comprar e não comprar. Também é conhecida como preço de reserva (reservation price).
Neste caso: DAP = €10 (o valor facial da nota).
🔑 Repare porquê: a DAP é, por definição, o valor que o bem, serviço ou opção tem para quem compra. Pagar mais do que isso seria pagar mais do que aquilo vale para si.
Suponhamos que o preço da nota é €6.
Pagam €6. Recebem €10.
O que aconteceu à diferença de €4?
Não se perdeu: ficou convosco! 🎉
\[\text{EC} = \underbrace{10}_{\text{DAP}} - \underbrace{6}_{\text{Preço}} = \text{€4}\]
A isso chamamos excedente do consumidor.
Comprariam uma nota de €10 por €12?
Não! Perderiam €2 na transação.
\[\text{EC} = 10 - 12 = -\text{€2}\]
Conclusão fundamental:
Transações só acontecem quando \(\text{EC} \geq 0\).
Se \(\text{EC} < 0\), o comprador não compra. 🚫
O excedente do consumidor é a diferença entre o máximo que o consumidor estaria disposto a pagar e o preço que efetivamente paga.
📌 Ou seja: DAP = valor que o bem, serviço ou opção tem para o consumidor.
\[\text{EC} = \text{DAP} - \text{Preço}\]
Exemplo: Um aluno está disposto a pagar €5 por um café, mas paga €2.
\[\text{EC} = 5 - 2 = \text{€3}\]
É o “ganho” da transação para o comprador. 💡
5 alunos, cada um com uma DAP diferente para um café:
| Aluno | DAP |
|---|---|
| Ana | €6 |
| Bruno | €5 |
| Carla | €4 |
| Diogo | €3 |
| Eva | €2 |
O preço de mercado é €3.
🤔 Quem compra? Qual é o excedente de cada um?
Compra quem tiver \(\text{DAP} \geq \text{Preço}\):
| Aluno | DAP | Preço | DAP - Preço | Compra? | \(\text{EC}\) |
|---|---|---|---|---|---|
| Ana | €6 | €3 | €3 | ✅ | €3 |
| Bruno | €5 | €3 | €2 | ✅ | €2 |
| Carla | €4 | €3 | €1 | ✅ | €1 |
| Diogo | €3 | €3 | €0 | ✅ (indiferente) | €0 |
| Eva | €2 | €3 | -€1 | ❌ | €0 (não compra) |
Eva fica de fora porque comprar lhe destruiria valor: por isso o seu EC realizado é 0, não -1.
\[\text{EC}_{\text{total}} = 3 + 2 + 1 + 0 + 0 = \text{€6}\]
Com 5 alunos, somamos os excedentes numa tabela. Com 500… 😅
Mas reparemos: a tabela não é mais do que uma lista de DAPs ordenada do maior para o menor.
Isso desenha exatamente o menu de DAPs: para cada quantidade, a DAP do comprador seguinte.
Menu de DAPs = a lista das disponibilidades a pagar de todos os compradores, ordenada de cima para baixo.
No limite contínuo, o excedente total deixa de ser uma soma e passa a ser uma área.
💡 Mais à frente no semestre daremos um nome a este menu e estudá-lo-emos em detalhe.
\[\text{EC} = \tfrac{1}{2} \times Q^* \times (\text{DAP}_{\max} - P^*)\]
Até agora vimos o comprador. E o vendedor?
Imagine que quer vender o seu manual usado.
O seu preço mínimo aceitável (PMA) é €3: foi o que pagou. Não vende abaixo disso.
Se conseguir vender por €7:
\[\text{EP} = \underbrace{7}_{\text{Preço}} - \underbrace{3}_{\text{PMA}} = \text{€4}\]
O excedente do produtor é o ganho do vendedor na transação. 💡
O excedente do produtor é a diferença entre o preço recebido e o preço mínimo aceitável (PMA) para vender. O PMA é o preço de reserva do vendedor: o valor que o bem tem para ele, tal como a DAP é o valor para o comprador.
\[\text{EP} = \text{Preço} - \text{PMA}\]
Exemplo: O preço mínimo aceitável do vendedor de um café é €0,80 e o café é vendido a €2.
\[\text{EP} = 2 - 0{,}80 = \text{€1,20}\]
O menu de PMAs é a lista dos preços mínimos aceitáveis de todos os vendedores, ordenada do menor para o maior.
\(\text{EP}\) = área do triângulo abaixo do preço e acima do menu de PMAs.
💡 Tal como o menu de DAPs, também este menu terá um nome e será estudado em detalhe mais à frente.
\[\text{EP} = \tfrac{1}{2} \times Q^* \times (P^* - \text{PMA}_{\min})\]
\[\text{ET} = \text{EC} + \text{EP}\]
O excedente total é o valor criado pela existência do mercado. 🌍
Se \(\text{EC} > 0\) e \(\text{EP} > 0\): ambas as partes ganham, logo a transação deve acontecer.
O excedente total é máximo quando todas as trocas mutuamente benéficas acontecem.
🤔 E que tipo de mercado garante isso?
🔮 Spoiler: os mercados competitivos, em que os preços se ajustam livremente. O que é a concorrência, e como leva o mercado a maximizar o excedente, é matéria para a parte final do semestre (equilíbrio de mercado). 📈
Se um consumidor está disposto a pagar €10 por um bem e o preço de mercado é €7, o excedente do consumidor é:
Resposta: a) \(\text{EC} = 10 - 7 = \text{€3}\)
Num mercado competitivo, o excedente total é maximizado. Isto significa que:
Resposta: c)
Um produtor tem um preço mínimo aceitável de €4 por unidade e vende a €9. Um segundo produtor tem um preço mínimo aceitável de €6 e vende também a €9. O excedente total dos produtores é:
Resposta: d) \(\text{EP}_1 = 9 - 4 = 5\); \(\text{EP}_2 = 9 - 6 = 3\); \(\text{EP}_{\text{total}} = \text{€8}\)
Se o preço de mercado sobe de €5 para €7, o que acontece ao excedente do consumidor?
Resposta: b) Preço mais alto → \(\text{EC} = \text{DAP} - P\) diminui para cada comprador. ↓
Num mercado existem 4 consumidores com DAPs de €8, €6, €4 e €2, e 4 produtores com PMAs de €1, €3, €5 e €7.
Se o preço de mercado for €4,50, calcule:
(a) O excedente de cada consumidor que compra
(b) O excedente de cada produtor que vende
(c) O excedente total
Compram: DAP \(\geq\) 4,50 → €8 e €6. Vendem: PMA \(\leq\) 4,50 → €1 e €3.
(a) Excedente dos consumidores:
\[\text{EC}_1 = 8 - 4{,}50 = \text{€3,50} \qquad \text{EC}_2 = 6 - 4{,}50 = \text{€1,50}\]
(b) Excedente dos produtores:
\[\text{EP}_1 = 4{,}50 - 1 = \text{€3,50} \qquad \text{EP}_2 = 4{,}50 - 3 = \text{€1,50}\]
(c) Excedente total:
\[\text{ET} = (3{,}50 + 1{,}50) + (3{,}50 + 1{,}50) = \text{€10}\]
Aprendemos a medir o ganho de uma escolha: o excedente.
Mas para saber se uma escolha é boa, o ganho tem de superar o custo.
🤔 Qual é o verdadeiro custo de uma decisão?
Tem €1.000 numa gaveta em casa.
🤔 Quanto lhe custa manter esse dinheiro ali?
Nada? De graça? 🤔
… Tem a certeza?
Se um depósito a prazo paga 3% ao ano:
Ao manter €1.000 na gaveta, está a abdicar de €30/ano.
O dinheiro na gaveta não é “gratuito”: tem um custo de oportunidade de €30/ano. 💸
O dinheiro parado custa-lhe o que podia ter ganho com ele.
O custo de oportunidade (ou custo económico) de uma decisão é:
\[ \begin{aligned} \text{Custo Op.} &= \underbrace{\text{Custo Contabilístico}}_{\text{explícito}} \\[4pt] &+ \underbrace{\text{Excedente da Melhor Alternativa}}_{\text{implícito}} \end{aligned} \]
Inclui não só o que paga, mas também o que abdicou ao não escolher a melhor alternativa.
📝 Nota: alguns textos chamam “custo de oportunidade” apenas ao custo implícito. Nesta cadeira, custo de oportunidade = custo económico = explícito + implícito.
Esta noite pode fazer uma de duas coisas:
Qual é o custo total de ir ao cinema?
\[\text{Custo Op.} = \underbrace{8}_{\text{bilhete}} + \underbrace{30}_{\text{estudo abandonado}} = \text{€38}\]
Benefício do cinema (€15) \(<\) Custo total (€38) → má decisão económica. 👎
🤔 Qual é o custo de frequentar esta aula?
Se podia estar a trabalhar a €10/h e a aula dura 3h:
\[\text{Custo Op.} = \text{propinas} + \text{manuais} + 3 \times 10 = \ldots + \text{€30}\]
Se o seu tempo tem usos alternativos com valor, o custo real é maior do que o que aparece na fatura. 💡
| Lucro Contabilístico | Lucro Económico | |
|---|---|---|
| Receitas | Receitas | Receitas |
| Custos | Custos explícitos | Custos explícitos + Custos implícitos |
\[\text{Lucro Económico} = \text{Lucro Contabilístico} - \text{Custos Implícitos}\]
Se existe a opção de não participar (valor €0), os custos implícitos são \(\geq 0\) e o lucro económico fica menor ou igual ao contabilístico.
Um projeto pode ter lucro contabilístico positivo mas lucro económico negativo. 🔍
A sua loja de roupa tem:
\[\text{Lucro Contabilístico} = 100.000 - 80.000 = +\text{€}20.000 \checkmark\]
Mas e se, em alternativa, pudesse trabalhar como consultor por €35.000/ano?
\[\text{Lucro Económico} = 20.000 - 35.000 = -\text{€}15.000\]
A loja dá lucro contabilístico, mas está a perder €15.000/ano face à melhor alternativa.
A decisão racional é fechar a loja. 💡
Um investidor mantém €10.000 numa conta à ordem que rende 0%.
Se um depósito a prazo oferece 3% ao ano:
\[\text{Custo de oportunidade} = 10.000 \times 0{,}03 = \text{€300/ano}\]
O dinheiro nunca é realmente “gratuito” 💡: poderia estar a render noutro lugar.
É por isto que o valor temporal do dinheiro é central em finanças: um euro hoje vale mais do que um euro amanhã, porque hoje pode ser investido.
Uma empresa tem de escolher entre duas alternativas, ambas com prejuízo:
Não pode “não escolher”. Tem de ficar com a menos má: a Opção A. 🤷
🤔 Qual é o custo de oportunidade de escolher a Opção A?
\[\text{Custo op. de A} = \text{excedente de B} = -\text{€}80.000\]
O custo de oportunidade pode ser negativo! Abdicou de algo ainda pior. 💡
Recorde: escolheu-se a Opção A (prejuízo €50.000), com custo de oportunidade de \(-\text{€}80.000\) (o excedente de B).
\[\text{Lucro Económico de A} = -50.000 - (-80.000) = +\text{€}30.000\]
Apesar do prejuízo contabilístico, escolher A foi economicamente correto: evitou-se um prejuízo maior.
📌 Aqui não existe a opção de não participar (a empresa tem de escolher uma das duas). Por isso a melhor alternativa pode valer menos de €0 e o custo de oportunidade pode ser negativo: é sempre “o que ficou de fora”, mesmo que isso também fosse mau.
Uma empresa pode implementar o Projeto A (lucro de €200k) ou o Projeto B (lucro de €350k), mas não ambos. O lucro económico de escolher o Projeto A é:
Resposta: a) Lucro económico \(= 200 - 350 = -\text{€150k}\) 📉
O custo de oportunidade de frequentar a universidade inclui:
Resposta: c)
Uma empresa tem lucro contabilístico de €50k. O dono poderia ganhar €70k/ano a trabalhar por conta de outrem. O lucro económico é:
Resposta: d) \(50 - 70 = -\text{€20k}\). Vale a pena reconsiderar o negócio! 📉
Um investidor tem €50.000 e pondera duas opções:
Se escolher a Opção B, qual é o seu custo de oportunidade? E o lucro económico da Opção B?
Retorno da Opção A: \(50.000 \times 0{,}08 = \text{€}4.000\)
Retorno da Opção B: \(50.000 \times 0{,}03 = \text{€}1.500\)
Custo de oportunidade de B = retorno sacrificado de A = €4.000
Lucro económico da Opção B:
\[1.500 - 4.000 = -\text{€}2.500\]
Escolher B tem lucro económico negativo: o investidor estaria melhor com A. 📉