Procura e Elasticidade
Na aula passada resolvemos o problema do consumidor e obtivemos a procura Marshalliana: a quantidade ótima em função dos preços e do rendimento.
Para a Cobb-Douglas:
\[x_1^{*}(p_1, p_2, W) = \frac{\alpha\, W}{p_1}\]
Hoje deixamos de olhar para \(x_1^{*}\) como um número e passamos a olhar para ela como uma curva. 📈
Fixemos o rendimento \(W\) e o preço do outro bem \(p_2\), e deixemos variar só o preço do bem, \(p_1 \equiv P\).
O que sobra é uma relação entre preço e quantidade procurada:
\[Q^{D} = Q^{D}(P)\]
A isto chamamos a curva de procura: para cada preço, a quantidade que o consumidor escolhe comprar, mantendo tudo o resto constante (rendimento, outros preços, preferências).
Vimos que, para a Cobb-Douglas:
\[\frac{\partial x_1^{*}}{\partial p_1} = -\frac{\alpha W}{p_1^2} < 0\]
Lei da Procura
Quando o preço de um bem sobe, a quantidade procurada desce, mantendo tudo o resto constante.
A curva de procura tem inclinação negativa. É a regularidade mais robusta de toda a microeconomia. 💪
Desenhamos sempre a procura no plano \((Q, P)\), com o preço no eixo vertical, mesmo escrevendo \(Q\) como função de \(P\).
É uma convenção histórica (Marshall, 1890), mas está tão enraizada que a seguimos sempre.
Duas coisas muito diferentes:
Mover-se ao longo da curva: só o próprio preço muda. É a resposta que a curva já descreve.
Deslocar a curva inteira: muda algo que estava “constante”, logo a curva muda de posição.
A curva desloca-se para fora (mais procura a cada preço) quando:
E para dentro nas situações simétricas. Um bem inferior desloca-se para dentro quando o rendimento sobe.
Muitas vezes é útil perguntar o contrário: para uma dada quantidade, qual é o preço?
Basta resolver \(Q^{D}(P)\) em ordem a \(P\). Obtemos a procura inversa \(P(Q)\).
Graficamente é a mesma curva: só trocamos a pergunta de “quanto se compra a este preço?” para “que preço sustenta esta quantidade?”.
Preço de reserva
O preço de reserva de uma unidade é o máximo que o consumidor está disposto a pagar por ela. É, por definição, o valor que essa unidade tem para ele.
O preço de reserva não é um conceito novo: é exatamente a DAP da aula 1, o valor máximo que está disposto a pagar. Já lá lhe tínhamos chamado preço de reserva; daqui em diante é o nome que vamos usar. 💡
Da utilidade marginal decrescente (1ª lei de Gossen): cada unidade extra vale menos que a anterior, logo o preço de reserva desce à medida que a quantidade sobe.
Por isso a curva de procura inversa é a curva dos preços de reserva. Ler a procura de cima para baixo é ler “quanto valor dou eu à próxima unidade”. 💡
Na prática usamos muito a forma linear, uma boa aproximação local:
\[Q^{D} = a - b\,P \qquad (a > 0,\; b > 0)\]
Resolvendo \(Q = a - bP\) em ordem a \(P\):
\[P = \frac{a}{b} - \frac{1}{b}\,Q\]
\(\frac{a}{b}\) é o preço de reserva máximo (choke price): acima dele, o consumidor não compra.
Duas pessoas querem o mesmo bem. Ao preço \(P = 2\):
🤔 Quanto quer o mercado a \(P = 2\)?
A resposta natural é 8: simplesmente somamos as quantidades de cada um. E está correto!
A cada preço, a procura de mercado é a soma das quantidades que cada consumidor procura a esse preço:
\[Q^{M}(P) = \sum_{i=1}^{n} Q_i^{D}(P)\]
Somamos quantidades (na horizontal), não preços (na vertical). Por isso se chama soma horizontal.
A procura de mercado herda a inclinação negativa e todas as propriedades das procuras individuais.
Duas procuras: \(Q_1 = 8 - 2P\) e \(Q_2 = 6 - P\). Arraste o preço e veja a soma horizontal. 🖱️
No exemplo, \(Q_1 = 8 - 2P\) (só compra abaixo de \(P = 4\)) e \(Q_2 = 6 - P\) (abaixo de \(P = 6\)).
No preço em que um consumidor entra (aqui \(P = 4\)), a curva ganha um cotovelo e fica mais deitada: mais um consumidor a reagir ao preço. 📐
\(Q_1 = 8 - 2P\) e \(Q_2 = 6 - P\). A procura de mercado, para \(P \leq 4\):
\[Q^{M} = (8 - 2P) + (6 - P) = 14 - 3P\]
A \(P = 2\): \(\; Q_1 = 4,\; Q_2 = 4,\; Q^{M} = 8\). ✓
A \(P = 5\) (só o consumidor 2): \(\; Q_1 = 0,\; Q_2 = 1,\; Q^{M} = 1\).
Paga o preço de mercado por cada unidade. Mas as primeiras unidades valem para si muito mais do que isso (preço de reserva alto).
Comprou algo que vale 8€ para si, e pagou 5€. Ganhou 3€ de “valor líquido”.
Somando esse ganho sobre todas as unidades compradas, obtemos o excedente do consumidor. 💰
Excedente do consumidor (EC)
Por unidade, é a diferença entre o preço de reserva (o que vale para o consumidor) e o preço efetivamente pago.
O EC total é a área abaixo da curva de procura e acima do preço de mercado.
É a medida monetária do benefício líquido que o consumidor retira de participar no mercado.
Arraste o preço e repara como o triângulo muda de forma. 🖱️
Baixa o preço: o triângulo fica mais alto (cada unidade vale mais em excedente) e mais largo (compensa comprar mais unidades). As duas coisas ampliam o excedente ao mesmo tempo. 📈
Para a procura inversa \(P = \frac{a}{b} - \frac{1}{b}Q\), ao preço de mercado \(p\):
\[\text{EC} = \frac{1}{2} \times Q^{*} \times \left(\frac{a}{b} - p\right)\]
Exemplo: \(P = 10 - 2Q\), preço de mercado \(p = 4\).
\[Q^{*} = \frac{10 - 4}{2} = 3 \qquad \text{EC} = \frac{1}{2} \times 3 \times (10 - 4) = 9\]
Quando o preço desce de \(p_0\) para \(p_1\), o excedente aumenta: ganhamos nas unidades que já comprávamos e nas novas. ✅
A procura de mercado é \(Q^{D} = 80 - 4P\). O preço de reserva máximo (choke price) é:
Resposta: a) O choke price é \(a/b = 80/4 = 20\).
Dois consumidores: \(Q_1 = 8 - 2P\) e \(Q_2 = 6 - P\). Para \(P \leq 4\), a procura de mercado é:
Resposta: b) Soma horizontal: \((8 - 2P) + (6 - P) = 14 - 3P\).
A procura de mercado de um bem é \(Q^{D} = 200 - 5P\).
a) Escreva a procura inversa.
b) Para \(P = 20\), calcule a quantidade e o excedente do consumidor.
c) O preço desce para \(P = 10\). Qual o novo EC e o ganho para os consumidores?
Solução
a) \(P = 40 - \frac{1}{5}Q\); choke price = 40.
b) \(Q = 200 - 100 = 100\); \(\; \text{EC} = \frac{1}{2} \times 100 \times (40 - 20) = 1000\).
c) \(Q = 200 - 50 = 150\); \(\; \text{EC} = \frac{1}{2} \times 150 \times (40 - 10) = 2250\).
Ganho: \(2250 - 1000 = \mathbf{1250}\).
Sabemos que a procura desce quando o preço sobe. Mas quanto?
Primeira ideia: usar o declive \(\frac{dQ}{dP}\). Se é \(-2\), cada euro tira 2 unidades.
🤔 Será que o declive é uma boa medida de sensibilidade?
A procura de sal sobe de 1 para 2 kg (+1 kg). A procura de arroz sobe de 100 para 101 kg (também +1 kg).
Em unidades absolutas, as duas variações são “iguais”: +1 kg. Mas sentimos que a primeira é uma mudança enorme, e a segunda quase não se nota.
Duplicar a procura de sal (\(+100\%\)) não é a mesma coisa que aumentar a procura de arroz em \(1\%\) (\(101/100\)). O declive, em unidades absolutas, não distingue isto. 👎
A mesma procura, medida em litros: \(\frac{dQ}{dP} = -2\).
Agora medida em decilitros (a mesma coisa, \(\times 10\)): \(\frac{dQ}{dP} = -20\).
O comportamento é idêntico, mas o declive ficou 10 vezes maior. O declive depende das unidades: não serve como medida universal de sensibilidade. 👎
Se em vez de “quantas unidades por euro” perguntarmos “quantos % de quantidade por % de preço”, resolvemos os dois problemas de uma vez.
\[\frac{\%\,\Delta Q}{\%\,\Delta P} = \frac{\Delta Q / Q}{\Delta P / P}\]
As unidades cancelam-se (litros ou decilitros dão a mesma percentagem), e a percentagem já divide pela base, captando a importância relativa da mudança: \(+1\) kg pesa muito mais em \(1\) kg do que em \(100\) kg. Medida adimensional: comparável entre bens e entre países. 💡
Elasticidade preço da procura
\[\varepsilon_D = \frac{\%\,\Delta Q_D}{\%\,\Delta P} = \frac{dQ_D}{dP} \cdot \frac{P}{Q_D}\]
Lê-se: se o preço sobe 1%, a quantidade procurada varia \(\varepsilon_D\) por cento.
Pela lei da procura, \(\frac{dQ_D}{dP} < 0\), logo \(\varepsilon_D < 0\) (quase sempre).
Por comodidade, classificamos usando o valor absoluto \(|\varepsilon_D|\): quanto maior, mais sensível a procura.
| \(\lvert\varepsilon_D\rvert\) | Classificação | Significado |
|---|---|---|
| \(> 1\) | Elástica | \(\%\Delta Q > \%\Delta P\); muito sensível |
| \(= 1\) | Unitária | \(\%\Delta Q = \%\Delta P\) |
| \(< 1\) | Inelástica | \(\%\Delta Q < \%\Delta P\); pouco sensível |
Bens de luxo com muitos substitutos tendem a ser elásticos; bens essenciais sem substitutos, inelásticos.
\(|\varepsilon| = 0\): a quantidade não reage (ex.: medicamento vital). \(|\varepsilon| \to \infty\): qualquer subida de preço leva a procura a zero (substituto perfeito).
Para \(Q_D = a - bP\), temos \(\frac{dQ_D}{dP} = -b\), logo:
\[\varepsilon_D = -b \cdot \frac{P}{Q_D}\]
Important
O declive \(b\) é constante, mas a razão \(P/Q_D\) muda ao longo da curva. Por isso a elasticidade não é constante numa procura linear.
Elasticidade unitária: \(\left| -b \cdot \frac{P}{a - bP} \right| = 1\).
\[bP = a - bP \;\Rightarrow\; 2bP = a \;\Rightarrow\; P^{*} = \frac{a}{2b}, \quad Q^{*} = \frac{a}{2}\]
O ponto de elasticidade unitária está sempre a meio da reta de procura. 🎯
\(\varepsilon_D = -2 \cdot \frac{P}{Q_D}\), em três pontos:
| \(P\) | \(Q_D\) | \(\varepsilon_D\) | Classificação |
|---|---|---|---|
| 40 | 20 | \(-2 \cdot \frac{40}{20} = -4\) | Elástica |
| 25 | 50 | \(-2 \cdot \frac{25}{50} = -1\) | Unitária |
| 10 | 80 | \(-2 \cdot \frac{10}{80} = -0{,}25\) | Inelástica |
O ponto de elasticidade unitária (\(P = 25\), \(Q = 50\)) é exatamente o ponto médio (\(a/2b = 100/4 = 25\)).
A despesa dos consumidores é a receita do produtor: \(R = P \cdot Q_D\). Do nosso lado (consumidor), é o gasto total.
Pergunta central: se o preço desce, o gasto total sobe ou desce?
Depende de qual efeito domina: paga menos por cada unidade (reduz o gasto) mas agora compensa comprar mais unidades (aumenta o gasto).
\[\Delta R \approx \underbrace{Q_0 \cdot \Delta P}_{\text{efeito preço}} + \underbrace{P_0 \cdot \Delta Q}_{\text{efeito quantidade}}\]
| Zona | Se \(P\) desce | Gasto (= Receita) |
|---|---|---|
| Elástica \(\lvert\varepsilon\rvert>1\) | \(Q\) sobe muito | aumenta |
| Unitária \(\lvert\varepsilon\rvert=1\) | efeitos anulam-se | máxima |
| Inelástica \(\lvert\varepsilon\rvert<1\) | \(Q\) sobe pouco | diminui |
Arraste o preço e veja os dois efeitos da tabela anterior, em tamanho real. 🖱️
Vermelho = efeito preço, verde = efeito quantidade. Quem ganha troca com a direção do preço: o gasto só sobe se o verde vencer o vermelho. 🔍
\[R = P(100 - 2P) = 100P - 2P^{2}\]
\[\frac{dR}{dP} = 100 - 4P = 0 \;\Rightarrow\; P^{*} = 25, \quad R^{*} = 25 \times 50 = 1250\]
\(P^{*} = 25\) é o ponto de elasticidade unitária. Confirmação: \(P = 20 \Rightarrow R = 1200\); \(P = 30 \Rightarrow R = 1200\). Ambos \(< 1250\). ✅
A procura é \(Q_D = 200 - 5P\). Quando \(P = 20\), a elasticidade preço é:
Resposta: c) \(Q_D = 200 - 100 = 100\); \(\varepsilon_D = -5 \cdot \frac{20}{100} = -1\).
Se a procura é inelástica (\(|\varepsilon_D| < 1\)), uma redução do preço provoca:
Resposta: d) Na zona inelástica, o ganho de quantidade não compensa a perda de preço.
A procura de mercado é \(Q_D = 150 - 3P\).
a) Calcule \(\varepsilon_D\) em \(P = 10\) e em \(P = 40\); classifique.
b) Determine o preço que maximiza a receita.
c) Calcule a receita máxima.
Solução
a) \(P = 10\): \(Q = 120\), \(\varepsilon_D = -3 \cdot \frac{10}{120} = -0{,}25\) (inelástica). \(P = 40\): \(Q = 30\), \(\varepsilon_D = -3 \cdot \frac{40}{30} = -4\) (elástica).
b) \(R = P(150 - 3P) = 150P - 3P^{2}\); \(\frac{dR}{dP} = 150 - 6P = 0 \Rightarrow P^{*} = 25\).
c) \(Q^{*} = 150 - 75 = 75\); \(R^{*} = 25 \times 75 = \mathbf{1875}\).
Hoje olhámos só para o lado da procura: o que os consumidores querem a cada preço.
Falta o outro lado: a oferta. De onde vêm os custos das empresas, e como decidem quanto produzir?
Nas próximas aulas: produção, custos e maximização do lucro. Juntando procura e oferta, chegamos ao equilíbrio de mercado. 🎯