Conceitos Fundamentais
Bibliografia recomendada:
📖 Princípios de microeconomia, António José Morgado, Paulo Ferreira, 2ed, Rei dos Livros, 2021.
📖 Exercícios de microeconomia, António José Morgado, Paulo Ferreira. 2ed, Rei dos Livros, 2021.
Decidir o que produzir, como e para quem, utilizando recursos escassos, passíveis de utilizações alternativas, num contexto de não saciedade (necessidades ilimitadas).
Segundo Lionel Robbins (1935):
Ciência que estuda o comportamento humano como uma relação entre fins e meios escassos que têm usos alternativos.
Estuda o comportamento e interação de consumidores e produtores, enquanto indivíduos isolados, que se encontram num mercado.
Estuda o desempenho da economia à escala nacional. Analisa variáveis agregadas como o rendimento, o emprego e o investimento. Estuda fenómenos como a inflação e os ciclos económicos.
Economia Positiva
Análise científica, objetiva, com conclusões demonstráveis e verificáveis.
Economia Normativa
Análise subjetiva, influenciada por juízos de valor, em função de preceitos políticos, éticos ou morais.
O que seria o mundo sem escassez?
Não haveria necessidade de escolher entre utilizações alternativas para um recurso, porque ele existiria em quantidades ilimitadas…
A escassez obriga a que se façam escolhas, levando a um trade-off: para se ter uma utilização de um recurso, prescinde-se (total ou parcialmente) de outra utilização alternativa.
O custo económico de utilização de um recurso é o custo de oportunidade.
Valor gerado por um recurso na sua melhor utilização alternativa.
O Custo de Oportunidade representa, portanto, o valor que os agentes económicos atribuem à melhor alternativa de que prescindem quando efetuam uma escolha.
Qual é o custo de oportunidade da utilização de um recurso ilimitado?
(Resposta: Zero, porque não há alternativas escassas)
O João tem um Prédio Rural que pode vender por €1,000 no mercado, mas pagaria €100 de imposto sobre mais-valias de imóveis.
Se plantar eucaliptos, pode ter um rendimento de €1,800 por ano, mas terá de investir €1,100 no cultivo e tratamento das árvores.
Se optar por plantar eucaliptos, qual o custo de oportunidade da decisão?
O custo de oportunidade de plantar eucaliptos será o valor que o João conseguiria ter se optasse pela alternativa (vender):
\[ \underbrace{€1{,}000 - €100}_{\text{Excedente na alternativa}} + \overbrace{€1{,}100}^{\text{Despesa que não teria}} = €2{,}000 \]
Qual a relação entre custo de oportunidade de uma escolha e a despesa com a sua aquisição?
O custo de oportunidade da venda será o valor que o João conseguiria ter se optasse pela alternativa (plantar eucaliptos):
\[ \underbrace{€1{,}800 - €1{,}100}_{\text{Excedente na alternativa}} + \overbrace{€100}^{\text{Despesa que não teria}} = €800 \]
A decisão racional será aquela opção para a qual o custo de oportunidade é inferior ao benefício bruto nessa opção.
Vender:
Plantar:
A decisão racional é vender o terreno, pois é aquela para a qual o custo de oportunidade é inferior ao benefício bruto:
\[ \underbrace{€1{,}800 - €1{,}100 - €100}_{\text{CO da venda}} < \underbrace{€1{,}000}_{\text{Benefício bruto da venda}} \]
Uma decisão é racional se:
A seguir: Análise Custo-Benefício, Bmg e Cmg
A comparação entre custos marginais e benefícios marginais é particularmente útil quando é necessário escolher a quantidade de um recurso que está a ser utilizada ou a quantidade de um bem que se está a produzir.
Valerá a pena aumentar a quantidade enquanto o benefício marginal (benefício adicional por mais uma unidade) for superior ao custo marginal (custo adicional por essa unidade).
Um produtor de Pêra Rocha do Oeste precisa decidir que quantidade de pêra deve colher nos seus pomares.
As receitas e os custos são de acordo com o quadro seguinte:
| Quantidade (10s caixas) | Receitas (benefício) | Benefício marginal | Custos | Custo marginal |
|---|---|---|---|---|
| 10 | €100 | €80 | ||
| 11 | €109 | €85 | ||
| 12 | €117 | €92 | ||
| 13 | €124 | €100 | ||
| 14 | €130 | €110 |
| Quantidade (10s caixas) | Receitas (benefício) | Benefício marginal | Custos | Custo marginal |
|---|---|---|---|---|
| 10 | €100 | - | €80 | |
| 11 | €109 | €9 | €85 | |
| 12 | €117 | €8 | €92 | |
| 13 | €124 | €7 | €100 | |
| 14 | €130 | €6 | €110 |
| Quantidade (10s caixas) | Receitas (benefício) | Benefício marginal | Custos | Custo marginal |
|---|---|---|---|---|
| 10 | €100 | - | €80 | - |
| 11 | €109 | €9 | €85 | €5 |
| 12 | €117 | €8 | €92 | €7 |
| 13 | €124 | €7 | €100 | €8 |
| 14 | €130 | €6 | €110 | €10 |
\[Bmg = \frac{\Delta B}{\Delta Q}, \quad Cmg = \frac{\Delta C}{\Delta Q}\]
| Quantidade (10s caixas) | Receitas | Bmg | Custos | Cmg |
|---|---|---|---|---|
| 10 | €100 | - | €80 | - |
| 11 | €109 | €9 | €85 | €5 |
| 12 | €117 | €8 | €92 | €7 |
| 13 | €124 | €7 | €100 | €8 |
| 14 | €130 | €6 | €110 | €10 |
| 16 | €140 | €5 | €132 | €11 |
Qual a quantidade ótima de caixas a produzir?
| Quantidade | Receitas | Bmg | Custos | Cmg | Lucro |
|---|---|---|---|---|---|
| 10 | €100 | - | €80 | - | €20 |
| 11 | €109 | €9 | €85 | €5 | €24 |
| 12* | €117 | €8 | €92 | €7 | €25 |
| 13 | €124 | €7 | €100 | €8 | €24 |
| 14 | €130 | €6 | €110 | €10 | €20 |
| 16 | €140 | €5 | €132 | €11 | €12 |
Quantidade ótima: 12 caixas (onde Bmg ≈ Cmg)
Se a uma função \(f\) for diferenciàvel no conjunto aberto \(S\), então:
À condição na primeira derivada chamamos Condição de Primeiro Ordem (CPO), e à condição na segunda derivada chamamos Condição de Segundo Ordem (CSO).
Se a função tiver segunda derivada monotónica, então a CSO não é necessária.
Para maximizar o lucro (Benefício - Custo):
\[ \max\ (B - C) \]
Condição de primeira ordem:
\[ \frac{d(B-C)}{dQ} = 0 \Rightarrow B' - C' = 0 \Rightarrow B' = C' \]
Conclusão:
\[ Bmg = Cmg \]
Análise marginal é o cálculo da variação de uma variável por unidade adicional de outra
Análise marginal corresponde, portanto, a uma taxa de variação média
Uma taxa de variação média é uma derivada
O critério custo-benefício corresponde à condição de primeira ordem de máximo
Por vezes, os agentes económicos não tomam decisões racionais, porque a racionalidade é limitada, já que:
Mas admitiremos que os indivíduos são racionais e que reagem a incentivos.
Escolhas racionais são escolhas eficientes.
Eficiência (no sentido de Pareto) significa não poder melhorar a situação de um agente económico sem piorar a situação de outro…
Em geral, todas as escolhas eficientes têm subjacente um trade-off: uma situação de escolha em que para ter mais de uma opção é preciso prescindir de outra.
Na produção, eficiência é incompatível com desaproveitamento de recursos.
Refere-se à adição de todos os benefícios que decorrem das escolhas para todos os agentes económicos. Note que estes benefícios não fazem referência ao benefício bruto, mas sim ao excedente.
A seguir: Fronteira das Possibilidades de Produção (FPP), Custo Relativo, Vantagens do Comércio
Descreve a produção máxima que é possível obter, para um conjunto de bens, dados os recursos disponíveis numa economia.
No modelo:
Os pontos A e B representam produção com especialização em cada uma das atividades
Pontos sobre a FPP são pontos de produção eficientes no sentido de Pareto
A partir de um ponto da FPP, caso se queira aumentar a produção de um bem, é preciso prescindir da produção de outro
A partir de um ponto da FPP, a razão \(\left|\frac{\Delta Y}{\Delta X}\right|\) coincide com o declive da FPP linear (sem sinal) e designa-se custo relativo do bem \(X\).
Representa um custo de oportunidade!
Produzir mais \(\Delta X\) custa \(\Delta Y\), ou, cada unidade de \(X\) custa \(\frac{\Delta Y}{\Delta X}\) de unidades de \(Y\).
\(\frac{\Delta Y}{\Delta X}\) é a taxa de variação média: qual a variação em \(Y\) por unidade de variação em \(X\)
Quando \(\Delta X \to 0\), obtemos a derivada: \(\frac{dY}{dX}\)
A derivada mede o declive da tangente à FPP num ponto
Conclusão: O custo relativo num ponto é dado pela derivada da FPP (em valor absoluto)
Um agente económico, sempre pode consumir o que pode produzir, ou seja todos os pontos sobre (e abaixo) da FPP representam um espaço de consumo. Ainda mais, a FPP representa também a Fronteira de Possibilidades de Consumo (FPC). Isto é verdade sempre que o agente económico não tenha possibilidade de comerciar com outros agentes.
Há ganhos que decorrem de os indivíduos se especializarem nas tarefas que fazem melhor e recorrerem ao comércio para trocarem entre si o produto das suas atividades.
Usemos a FPP para tirar essa conclusão!
Dois vizinhos: um sabe pintar e o outro sabe cozinhar
🧑🎨
🧑🍳
| Custos de Oportunidade | Pintor 🧑🎨 | Cozinheiro 🧑🍳 | |
|---|---|---|---|
| Um bolo 🧁 | \(\frac{3}{4}\) | \(>\) | \(\frac{1}{3}\) |
| Um quadro 🖼️ | \(\frac{4}{3}\) | \(<\) | \(3\) |
O cozinheiro tem vantagem comparativa na produção de bolos (menor custo de oportunidade: \(\frac{1}{3} < \frac{3}{4}\))
O pintor tem vantagem comparativa na produção de quadros (menor custo de oportunidade: \(\frac{4}{3} < 3\))
Pintor:
Valerá a pena especializar-se na produção de quadros se puder trocar cada um por mais do que \(\frac{4}{3}\) bolos (o seu custo de oportunidade)
Cozinheiro:
Valerá a pena especializar-se na produção de bolos se puder trocar cada um por mais do que \(\frac{1}{3}\) de quadro (ou seja, um quadro em troca de no máximo 3 bolos)
Estando o pintor disposto a receber \(\frac{4}{3}\) bolos por cada quadro que venda e estando o cozinheiro disposto a pagar \(3\) bolos por cada quadro que compre, há margem para transações mutuamente vantajosas!
Pode haver trocas se um quadro se trocar por um qualquer número de bolos entre \(\frac{4}{3}\) e \(3\).
Admitamos que há especialização e que:
Termos de troca: 1 quadro = 2 bolos
(valor entre \(\frac{4}{3}\) e \(3\))
| Autarcia | Com Comércio | Ganhos | ||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Produção | Consumo | Produção | Consumo | |||
| 🧑🎨 | 🖼️ | 9 | 9 | 15 | 10 | +1 |
| 🧁 | 8 | 8 | 0 | 10 | +2 | |
| 🧑🍳 | 🖼️ | 4 | 4 | 0 | 5 | +1 |
| 🧁 | 3 | 3 | 15 | 5 | +2 |
Ambos ganham com o comércio!
Possibilidades de consumo se termos de troca forem 1 quadro = 2 bolos:
A linha azul mostra as novas possibilidades de consumo!
No exemplo, o pintor tem vantagem comparativa na produção de quadros porque o seu custo de oportunidade é menor do que o do cozinheiro
É da vantagem comparativa que dependem os ganhos do comércio e os padrões de especialização
O comércio (neste caso, troca direta) tem a vantagem de permitir que cada um dos agentes económicos se especialize na tarefa que faz relativamente melhor, para que depois eles se encontrem no mercado para fazerem transações.
Após o comércio, é possível os indivíduos estarem num ponto de consumo em que obtêm mais quantidade de ambos os bens, do que numa situação de autarcia, usando os mesmos recursos.
É neste princípio que se baseia o comércio internacional!
O que aconteceria se a FPP, em vez de linear, fosse côncava? O que significa isto? Porque poderia isto acontecer?
Para praticar: o Caderno de Exercícios 1 tem exercícios sobre FPP, custo de oportunidade e vantagem comparativa