A Teoria do Consumidor
Definição: Cabaz de Bens
É composto por quantidades de vários bens. Quando se comparam cabazes, os bens são os mesmos, mas as quantidades de cada um variam.
Exemplo: Dois bens — bolachas de chocolate (\(x\)) e laranjas (\(y\)).
De entre os cabazes disponíveis, encontrar a escolha ótima, dadas as variáveis exógenas:
O consumidor decide as variáveis endógenas: \(X\) e \(Y\).
\[X p_x + Y p_y = W\]
Exemplo: €10 para gastar em bolachas e laranjas.
\[0.25\, X + 0.10\, Y = 10\]
\[X p_x + Y p_y = W \quad\Leftrightarrow\quad Y = {\color{red}{\frac{W}{p_y}}} - {\color{blue}{\frac{p_x}{p_y}}} X\]
No exemplo: \(Y = {\color{red}{100}} - {\color{blue}{2.5}}\, X\)
O espaço de consumo diz-nos o que é possível comprar.
Mas não nos diz o que o consumidor prefere — precisamos das suas preferências.
Questão central: De entre todos os cabazes acessíveis, qual é o melhor?
Axioma 1: Desejabilidade (Não Saciedade)
Consumir mais é melhor.
Se \(A = (25, 30)\) contém mais de ambos os bens do que \(B = (20, 20)\), então \(A \succ B\).
Definição: Curva de Indiferença
Conjunto de todos os cabazes indiferentes entre si.
\(A\), \(B\) e \(C\) são cabazes indiferentes — pertencem à mesma curva \(U_1\).
Axioma 2: Preferências Completas
Dados dois cabazes, o consumidor sabe sempre dizer qual a relação de preferências entre eles. Todos os cabazes pertencem a uma curva de indiferença.
Axioma 3: Preferências Transitivas
Se \(A\) é preferido a \(B\), e \(B\) é preferido a \(C\), então \(A\) é preferido a \(C\).
Consequência direta: as curvas de indiferença não se podem cruzar!
A lógica do gráfico:
Preferências Racionais
Em contexto de desejabilidade, as preferências são racionais se forem completas e transitivas.
Outras hipóteses da Teoria do Consumidor:
O orçamento de um consumidor é \(W = 60\)€, \(p_x = 3\)€ e \(p_y = 4\)€. Qual é a equação da restrição orçamental na forma \(Y = f(X)\)?
(A) \(Y = 20 - \dfrac{4}{3} X\) \(\qquad\) (B) \(Y = 15 - \dfrac{3}{4} X\)
(C) \(Y = 15 - \dfrac{4}{3} X\) \(\qquad\) (D) \(Y = 20 - \dfrac{3}{4} X\)
Resposta: (B)
\(Y = \dfrac{60}{4} - \dfrac{3}{4} X = 15 - 0.75\, X\)
Com preferências racionais e desejabilidade, qual afirmação é verdadeira?
(A) Dois cabazes são indiferentes mesmo que um tenha mais de ambos os bens.
(B) As curvas de indiferença têm inclinação positiva.
(C) Curvas mais afastadas da origem representam maior satisfação.
(D) As curvas de indiferença podem cruzar-se se as preferências forem transitivas.
Resposta: (C)
Pela desejabilidade, cabazes com mais quantidade são preferidos — curvas mais afastadas da origem correspondem a maior satisfação.
Um consumidor dispõe de €120 para gastar em \(X\) (€4/un.) e \(Y\) (€6/un.).
a) Equação da restrição orçamental na forma \(Y = f(X)\). Identifique declive e ordenada na origem.
b) O preço de \(X\) sobe para €6. O que acontece graficamente?
c) O consumidor recebe um subsídio de €60 (lump-sum). Efeito sobre a restrição?
Solução
a) \(4X + 6Y = 120 \Rightarrow Y = 20 - \tfrac{2}{3}X\). Declive: \(-\tfrac{2}{3}\); Ordenada na origem: \(20\).
b) Com \(p_x = 6\): \(Y = 20 - X\). O intercepto em \(Y\) mantém-se em \(20\); o intercepto em \(X\) passa de \(30\) para \(20\). A RO roda para dentro em torno de \((0,\,20)\).
c) Com \(W = 180\): \(Y = 30 - \tfrac{2}{3}X\). Translação paralela para fora — o declive não muda.
Na secção anterior:
Nesta secção: função de utilidade, otimização e procura individual
Taxa Marginal de Substituição
É a taxa à qual o consumidor está disposto a trocar um bem pelo outro ficando indiferente. Define-se como a quantidade de \(Y\) de que está disposto a prescindir para ter mais uma unidade de \(X\), mantendo a utilidade constante: \[TMS = \frac{\Delta Y}{\Delta X}\bigg|_{\Delta U = 0}\]
Ao longo da curva de indiferença convexa, \(|TMS|\) é decrescente — valorizamos mais o bem que temos em menor quantidade.
Função de Utilidade
Representação numérica da relação de preferência: \[U(A) > U(B) \;\Leftrightarrow\; A \text{ é preferido a } B\] \[U(A) = U(B) \;\Leftrightarrow\; A \text{ é indiferente a } B\]
A função de utilidade é uma relação ordinal — ordena cabazes, mas o valor por si só não tem significado cardinal.
Consequência: muitas funções utilidade expressam as mesmas preferências — basta preservar a ordenação.
Exemplo: \(A(20,20) \succ B(10,10)\) — todas estas funções descrevem as mesmas preferências: \[U = x^{0.5}y^{0.5}, \quad U = 10x^{0.5}y^{0.5}, \quad U = 0.5(\ln x + \ln y)\]
Uma curva de indiferença é o conjunto de todos os cabazes com a mesma utilidade \(\bar{U}\):
\[\forall(x,y)\colon U(x,y) = \bar{U} \quad\Leftrightarrow\quad \Delta U = 0\]
Aproximamo-nos do ponto de saciedade → \(Umg \to 0\)
1.ª Lei de Gossen — Utilidade Marginal Decrescente
Uma unidade adicional de um bem tem uma utilidade adicional cada vez menor à medida que o consumo aumenta — a utilidade marginal é decrescente.
Preço de reserva: máximo que o consumidor está disposto a pagar por mais uma unidade. À medida que consome mais, a disponibilidade a pagar diminui.
Ao longo da curva de indiferença, \(\Delta U = 0\):
\[\Delta U = Umg_x \cdot \Delta X + Umg_y \cdot \Delta Y = 0\]
Isolando:
\[\boxed{TMS = \frac{\Delta Y}{\Delta X} = -\frac{Umg_x}{Umg_y}}\]
Escolha Ótima
É o ponto de consumo que maximiza a utilidade sujeito ao orçamento disponível: \[\max_{x,y} U(x,y) \quad \text{s.a.} \quad Xp_x + Yp_y = W\]
No ponto ótimo, o declive da RO iguala o declive da curva de indiferença:
\[-\frac{p_x}{p_y} = TMS = -\frac{Umg_x}{Umg_y}\]
2.ª Lei de Gossen
No ótimo do consumidor: \[\left|TMS\right| = \frac{p_x}{p_y} \quad\Leftrightarrow\quad \frac{Umg_x}{Umg_y} = \frac{p_x}{p_y}\]
\[\frac{Umg_x}{Umg_y} = \frac{p_x}{p_y}\]
Um consumidor tem €160, \(p_x = 20\)€ (camisas), \(p_y = 30\)€ (calças), \(U(x,y) = xy^3\).
Passo 1 — Calcular \(|TMS|\): \[Umg_x = y^3,\quad Umg_y = 3xy^2 \quad\Rightarrow\quad |TMS| = \frac{y}{3x}\]
Passo 2 — 2.ª Lei de Gossen: \[\frac{y}{3x} = \frac{20}{30} = \frac{2}{3} \quad\Rightarrow\quad y^* = 2x^*\]
Passo 3 — Substituir na RO: \[20x + 30(2x) = 160 \;\Rightarrow\; 80x = 160 \;\Rightarrow\; x^* = 2,\quad y^* = 4\]
Ao variar \(p_x\) com \(p_y\) e \(W\) constantes, cada preço dá um ótimo diferente.
O lugar geométrico dos ótimos é a Via Preço-Consumo.
Um consumidor tem \(U(x,y) = x \cdot y\), \(W = 100\)€, \(p_x = 5\)€, \(p_y = 4\)€. Qual a quantidade ótima de \(x\)?
(A) \(x^* = 5\) \(\quad\) (B) \(x^* = 10\) \(\quad\) (C) \(x^* = 20\) \(\quad\) (D) \(x^* = 8\)
Resposta: (B)
\(Umg_x = y\), \(Umg_y = x\). 2.ª Lei: \(\dfrac{y}{x} = \dfrac{5}{4} \Rightarrow y = \dfrac{5x}{4}\).
RO: \(5x + 4 \cdot \dfrac{5x}{4} = 10x = 100 \Rightarrow x^* = 10\).
Qual das afirmações sobre a 1.ª Lei de Gossen é correta?
(A) A utilidade total diminui à medida que se consome mais.
(B) A utilidade marginal é crescente com o consumo.
(C) A utilidade marginal é decrescente com o consumo.
(D) A utilidade marginal é constante.
Resposta: (C)
A 1.ª Lei de Gossen estabelece que cada unidade adicional acrescenta menos satisfação do que a anterior.
Um consumidor tem \(U(x,y) = x^2 y\), \(W = 90\)€, \(p_x = 3\)€, \(p_y = 2\)€.
a) Calcule \(Umg_x\) e \(Umg_y\).
b) Determine o cabaz ótimo \((x^*, y^*)\) pela 2.ª Lei de Gossen.
c) Calcule o nível de utilidade no ótimo.
Solução
a) \(Umg_x = 2xy\); \(\quad Umg_y = x^2\).
b) 2.ª Lei: \(\dfrac{2xy}{x^2} = \dfrac{2y}{x} = \dfrac{3}{2} \Rightarrow y = \dfrac{3x}{4}\).
RO: \(3x + 2 \cdot \dfrac{3x}{4} = 3x + \dfrac{3x}{2} = \dfrac{9x}{2} = 90 \Rightarrow x^* = 20,\quad y^* = 15\).
c) \(U(20,15) = 400 \times 15 = 6000\).
Nas secções anteriores:
Nesta secção: procura de mercado, modelos lineares e excedente do consumidor
\[Q^D(P) = \sum_{i=1}^{n} Q^D_i(P)\]
A procura de mercado herda as propriedades individuais:
O efeito do rendimento sobre a procura depende do tipo de bem:
Nota
O mesmo bem pode ser normal para uns consumidores e inferior para outros, e pode mudar de categoria ao longo da escala de rendimentos. A classificação não é uma propriedade do bem em si, mas da relação entre o bem e o rendimento de quem o compra.
Para simplificação de cálculo, usa-se frequentemente a procura linear:
Aviso
Qualquer que seja a forma, representa-se sempre no espaço \((Q, P)\), com \(P\) no eixo vertical — convenção de Marshall (1895).
Preço de Reserva
O preço de reserva é o máximo que o consumidor está disposto a pagar por uma unidade adicional do bem. É dado pela curva de procura inversa avaliada na quantidade em causa.
Da 1.ª Lei de Gossen: à medida que se consome mais, a \(Umg\) decresce → o preço de reserva também decresce.
A curva de procura é a curva dos preços de reserva marginais.
Excedente do Consumidor
Por unidade transacionada, é a diferença entre o preço de reserva e o preço de mercado efetivamente pago.
O excedente total é a área abaixo da curva de procura e acima do preço de mercado.
Para procura inversa \(P = \dfrac{a}{b} - \dfrac{1}{b} Q\), ao preço \(p_1\):
\[EC = \frac{1}{2} \times q_1 \times \left(\frac{a}{b} - p_1\right)\]
Exemplo: \(P = 10 - 2Q\), preço de mercado \(p = 4\).
Quando o preço desce de \(p_0\) para \(p_1\), o excedente do consumidor aumenta.
A procura de mercado é \(Q^D = 120 - 4P\). Se o preço de mercado é \(P = 10\), qual é o excedente do consumidor?
(A) \(EC = 200\) \(\quad\) (B) \(EC = 800\) \(\quad\) (C) \(EC = 400\) \(\quad\) (D) \(EC = 1600\)
Resposta: (B)
Procura inversa: \(P = 30 - \tfrac{1}{4}Q\).
\(Q = 120 - 40 = 80\). Preço máximo: \(30\).
\(EC = \tfrac{1}{2} \times 80 \times (30-10) = \tfrac{1}{2} \times 80 \times 20 = 800\).
Dois consumidores: \(Q_1^D = 8 - 2P\) e \(Q_2^D = 6 - P\). Qual é a procura de mercado para \(P \leq 4\)?
(A) \(Q^D = 14 - 3P\) \(\quad\) (B) \(Q^D = 14 - 2P\)
(C) \(Q^D = 6 - 3P\) \(\quad\) (D) \(Q^D = 8 - 3P\)
Resposta: (A)
Para \(P \leq 4\) (ambos ativos): \(Q^D = (8-2P) + (6-P) = 14 - 3P\).
Para \(P \in (4, 6]\): só \(Q_2^D = 6-P\) ativo. Para \(P > 6\): \(Q^D = 0\).
A procura de mercado de um bem é \(Q^D = 200 - 5P\).
a) Escreva a equação da procura inversa.
b) Se \(P = 20\), calcule a quantidade transacionada e o excedente do consumidor.
c) O preço desce para \(P = 10\). Qual o novo excedente? Qual o ganho para os consumidores?
Solução
a) \(P = 40 - \tfrac{Q}{5}\). Preço máximo: €40.
b) \(Q = 200 - 100 = 100\). \(EC = \tfrac{1}{2} \times 100 \times (40-20) = 1000\).
c) \(Q = 200 - 50 = 150\). \(EC = \tfrac{1}{2} \times 150 \times (40-10) = 2250\).
Ganho: \(2250 - 1000 = \mathbf{1250}\).