Elasticidades e Intervenção do Estado
Elasticidade
A elasticidade mede a variação percentual de uma variável em resposta à variação percentual de outra variável que a influencia.
Por ser uma razão de percentagens, a elasticidade é adimensional — não depende das unidades de medida.
Forma geral: \[\varepsilon_{Y,X} = \frac{\Delta\% Y}{\Delta\% X} = \frac{\dfrac{\Delta Y}{Y}}{\dfrac{\Delta X}{X}} = \frac{\Delta Y}{\Delta X} \cdot \frac{X}{Y}\]
Em termos contínuos (derivada): \[\varepsilon_{Y,X} = \frac{dY}{dX} \cdot \frac{X}{Y}\]
Vamos estudar três elasticidades da procura:
1. Elasticidade preço-direta \((\varepsilon_D)\)
Sensibilidade da quantidade procurada de \(X\) face ao preço de \(X\).
2. Elasticidade preço cruzada \((\varepsilon_{x,y})\)
Sensibilidade da quantidade procurada de \(X\) face ao preço de outro bem \(Y\).
3. Elasticidade rendimento \((\eta)\)
Sensibilidade da quantidade procurada de \(X\) face ao rendimento disponível.
Elasticidade Preço-Direta
Mede a variação percentual da quantidade procurada quando o preço do mesmo bem varia 1%, tudo o resto constante: \[\varepsilon_D = \frac{\Delta\% Q_D}{\Delta\% P} = \frac{\Delta Q_D}{\Delta P} \cdot \frac{P}{Q_D}\]
Como \(Q_D\) e \(P\) variam em sentidos opostos (Lei da Procura), \(\varepsilon_D < 0\) em geral.
Trabalha-se habitualmente com o valor absoluto \(|\varepsilon_D|\):
| \(|\varepsilon_D|\) | Classificação |
|---|---|
| \(> 1\) | Procura elástica |
| \(= 1\) | Elasticidade unitária |
| \(< 1\) | Procura inelástica (ou rígida) |
Para \(Q_D = a - bP\):
\[\frac{dQ_D}{dP} = -b \quad \Rightarrow \quad \varepsilon_D = -b \cdot \frac{P}{Q_D}\]
Nota importante
Numa procura linear, \(|\varepsilon_D|\) varia ao longo da curva — não é constante. O mesmo \(b\) produz elasticidades diferentes conforme o ponto \((P, Q_D)\) considerado.
A variação da despesa total (\(P \times Q_D\)) quando o preço sobe depende de \(|\varepsilon_D|\):
\[\Delta \text{Despesa} \approx \underbrace{P_0 \cdot \Delta Q}_{\text{efeito quantidade}} + \underbrace{\Delta P \cdot Q_0}_{\text{efeito preço}}\]
Elasticidade Preço Cruzada
Mede a variação percentual da quantidade procurada do bem \(X\) quando o preço do bem \(Y\) varia 1%, tudo o resto constante: \[\varepsilon_{x,y} = \frac{\Delta\% Q_x}{\Delta\% P_y} = \frac{\Delta Q_x}{\Delta P_y} \cdot \frac{P_y}{Q_x}\]
O sinal de \(\varepsilon_{x,y}\) identifica a relação entre os bens:
| Sinal | Relação | Interpretação |
|---|---|---|
| \(\varepsilon_{x,y} > 0\) | Bens substitutos | \(P_y \uparrow\) → procura de \(X\) sobe |
| \(\varepsilon_{x,y} < 0\) | Bens complementares | \(P_y \uparrow\) → procura de \(X\) desce |
| \(\varepsilon_{x,y} = 0\) | Bens independentes | preço de \(Y\) não afeta procura de \(X\) |
Substitutos — café e chá: se o preço do chá sobe, a procura de café sobe
Complementares — café e açúcar: se o preço do açúcar sobe, o café fica mais caro de consumir → procura de café desce
Aplicação à Definição de Mercado
A elasticidade cruzada é usada para determinar se dois bens pertencem ao mesmo mercado relevante. Quanto maior \(\varepsilon_{x,y}\), mais próximos os substitutos — iogurtes de diferentes marcas têm \(\varepsilon_{x,y}\) elevada; iogurtes e ervilhas têm \(\varepsilon_{x,y} \approx 0\).
Elasticidade Rendimento
Mede a variação percentual da quantidade procurada quando o rendimento disponível (\(W\)) varia 1%, tudo o resto constante: \[\eta = \frac{\Delta\% Q}{\Delta\% W} = \frac{\Delta Q}{\Delta W} \cdot \frac{W}{Q}\]
O sinal e magnitude de \(\eta\) classificam o tipo de bem:
| \(\eta\) | Tipo de bem |
|---|---|
| \(\eta < 0\) | Bem inferior (procura desce quando rendimento sobe) |
| \(0 < \eta \leq 1\) | Bem normal (procura sobe com rendimento, não mais do que proporcionalmente) |
| \(\eta > 1\) | Bem de luxo (procura sobe mais do que proporcionalmente) |
| Elasticidade | Valor | Conclusão |
|---|---|---|
| \(\lvert\varepsilon_D\rvert\) | \(> 1\) | Procura elástica |
| \(= 1\) | Elasticidade unitária | |
| \(< 1\) | Procura inelástica | |
| \(\varepsilon_{x,y}\) | \(> 0\) | Bens substitutos |
| \(= 0\) | Bens independentes | |
| \(< 0\) | Bens complementares | |
| \(\eta\) | \(< 0\) | Bem inferior |
| \(0 < \eta \leq 1\) | Bem normal | |
| \(> 1\) | Bem de luxo |
A procura de mercado de um bem é \(Q_D = 120 - 3P\). Qual é a elasticidade preço-direta quando \(P = 30\)?
\(\varepsilon_D = -1\) (elasticidade unitária)
\(\varepsilon_D = -3\) (elástica)
\(\varepsilon_D = -1/3\) (inelástica)
\(\varepsilon_D = -1/2\) (inelástica)
Resolução:
\[\frac{dQ_D}{dP} = -3\]
Quando \(P = 30\): \(\quad Q_D = 120 - 3 \times 30 = 30\)
\[\varepsilon_D = \frac{dQ_D}{dP} \cdot \frac{P}{Q_D} = -3 \times \frac{30}{30} = \mathbf{-3}\]
\(|\varepsilon_D| = 3 > 1\) → procura elástica neste ponto.
Se o preço subir 1%, a quantidade procurada reduz-se 3%.
Resposta: B)
A quantidade procurada do bem \(X\) é dada por \(Q_x = 80 - 3P_x - 2P_y\). Sabendo que \(P_x = 5\) e \(P_y = 6\), qual a relação entre \(X\) e \(Y\)?
Bens substitutos, pois \(\varepsilon_{x,y} > 0\)
Bens complementares, pois \(\varepsilon_{x,y} < 0\)
Bens independentes, pois \(\varepsilon_{x,y} = 0\)
Não é possível determinar sem conhecer o rendimento
Resolução:
\[\frac{\partial Q_x}{\partial P_y} = -2\]
Quando \(P_x = 5\), \(P_y = 6\): \[Q_x = 80 - 3(5) - 2(6) = 80 - 15 - 12 = 53\]
\[\varepsilon_{x,y} = \frac{\partial Q_x}{\partial P_y} \cdot \frac{P_y}{Q_x} = -2 \times \frac{6}{53} \approx -0.23\]
\(\varepsilon_{x,y} < 0\) → bens complementares: quando o preço de \(Y\) sobe, a quantidade procurada de \(X\) diminui.
Resposta: B)
A procura de um bem é \(Q_D = 120 - 3P\).
(a) Calcule \(\varepsilon_D\) quando \(P = 10\), \(P = 20\) e \(P = 30\). Classifique em cada caso.
(b) Para que valor de \(P\) a elasticidade é unitária?
(c) Calcule o Excedente do Consumidor para \(P = 10\) e para \(P = 20\). Comente a relação com a elasticidade.
Alínea (a): \(\dfrac{dQ_D}{dP} = -3\)
| \(P\) | \(Q_D\) | \(\varepsilon_D = -3 \cdot \frac{P}{Q_D}\) | Classificação |
|---|---|---|---|
| 10 | 90 | \(-3 \times \frac{10}{90} = -\frac{1}{3}\) | Inelástica |
| 20 | 60 | \(-3 \times \frac{20}{60} = -1\) | Unitária |
| 30 | 30 | \(-3 \times \frac{30}{30} = -3\) | Elástica |
Alínea (b): \(|\varepsilon_D| = 1 \Leftrightarrow \left|-3 \cdot \frac{P}{120-3P}\right| = 1\)
\[3P = 120 - 3P \quad \Rightarrow \quad 6P = 120 \quad \Rightarrow \quad \mathbf{P = 20}\]
Alínea (c): Inversa da procura: \(P = 40 - \dfrac{Q}{3}\) (preço máximo = 40 quando \(Q=0\))
EC quando \(P = 10\) (\(Q = 90\)): \[EC = \frac{(40 - 10) \times 90}{2} = \frac{30 \times 90}{2} = \mathbf{1{.}350}\]
EC quando \(P = 20\) (\(Q = 60\)): \[EC = \frac{(40 - 20) \times 60}{2} = \frac{20 \times 60}{2} = \mathbf{600}\]
Comentário
A \(P = 10\) a procura é inelástica — os consumidores estão dispostos a pagar muito acima do preço de mercado, gerando um EC elevado (1,350). A \(P = 20\) a procura é unitária e o EC é mais reduzido (600). A zona inelástica da procura coincide com onde os consumidores têm menos alternativas e maior disponibilidade a pagar.
Elasticidade preço-direta \((\varepsilon_D)\):
Elasticidade cruzada \((\varepsilon_{x,y})\):
Elasticidade rendimento \((\eta)\):
A seguir: a elasticidade preço da oferta e a sua relação com o horizonte temporal de produção.
Elasticidade Preço da Oferta
Mede a variação percentual da quantidade oferecida quando o preço varia 1%, tudo o resto constante: \[\varepsilon_S = \frac{\Delta\% Q_S}{\Delta\% P} = \frac{\Delta Q_S}{\Delta P} \cdot \frac{P}{Q_S}\]
Como \(Q_S\) e \(P\) variam no mesmo sentido (Lei da Oferta), \(\varepsilon_S \geq 0\) sempre.
Classificação:
| \(\varepsilon_S\) | Classificação |
|---|---|
| \(> 1\) | Oferta elástica |
| \(= 1\) | Elasticidade unitária |
| \(< 1\) | Oferta inelástica |
Para \(Q_S = c + dP\) (com \(d > 0\)):
\[\frac{dQ_S}{dP} = d \quad \Rightarrow \quad \varepsilon_S = d \cdot \frac{P}{Q_S}\]
Nota importante
Tal como na procura, numa oferta linear \(\varepsilon_S\) varia ao longo da curva — o mesmo \(d\) produz elasticidades diferentes conforme o ponto \((P, Q_S)\).
A exceção notável: uma oferta que passa pela origem tem sempre \(\varepsilon_S = 1\).
Para uma oferta linear \(Q_S = c + dP\), a elasticidade depende do sinal de \(c\):
Para \(Q_S = dP\) (origem): \(\quad\varepsilon_S = d \cdot \dfrac{P}{dP} = 1\) em qualquer ponto.
Para \(Q_S = c + dP\) com \(c > 0\): \(\quad\varepsilon_S = d \cdot \dfrac{P}{c + dP} < d \cdot \dfrac{P}{dP} = 1\)
Para \(Q_S = c + dP\) com \(c < 0\) (e \(Q_S > 0\)): \(\quad\varepsilon_S = d \cdot \dfrac{P}{c + dP} > 1\)
Regra prática
Numa oferta linear, basta ver onde a reta interseta os eixos:
Disponibilidade e mobilidade dos fatores de produção
A oferta de pizzas é mais elástica do que a oferta de morangos fora de época — o produtor de pizza pode aumentar a produção facilmente, mas o morangueiro não.
Capacidade produtiva instalada
A oferta de lugares numa aeronave é perfeitamente elástica até esgotar a capacidade e perfeitamente inelástica após isso.
Período de tempo
A oferta de longo prazo é sempre mais elástica do que a de curto prazo. Com mais tempo, os produtores conseguem ajustar capital, contratar mais fatores e redirecionar a produção.
Uma expansão da procura provoca, a curto prazo, um grande aumento de preço com pouco aumento de quantidade. A longo prazo, a oferta expande-se mais — o preço sobe menos e a quantidade aumenta mais.
| Procura \((\varepsilon_D)\) | Oferta \((\varepsilon_S)\) | |
|---|---|---|
| Sinal | \(\leq 0\) (sempre) | \(\geq 0\) (sempre) |
| Trabalha-se com | \(\lvert\varepsilon_D\rvert\) | \(\varepsilon_S\) |
| Numa linear: varia? | Sim, ao longo da curva | Sim, ao longo da curva |
| Exceção (linear) | — | Passa pela origem → \(\varepsilon_S = 1\) sempre |
| \(> 1\) significa | Procura elástica | Oferta elástica |
| \(= 0\) significa | Procura perfeitamente rígida | Oferta perfeitamente rígida |
| Prazo | LP mais elástica | LP mais elástica |
Simetria com a procura
A elasticidade da oferta tem a mesma lógica e fórmula que a elasticidade preço-direta da procura — a única diferença estrutural é o sinal (positivo vs. negativo) e o facto de a oferta poder ser unitária em todos os pontos quando passa pela origem.
A função de oferta de um mercado é \(Q_S = 3P + 6\). Qual é a elasticidade preço da oferta quando \(P = 6\)?
\(\varepsilon_S = 1\)
\(\varepsilon_S = 3\)
\(\varepsilon_S = \dfrac{3}{4}\)
\(\varepsilon_S = \dfrac{3}{2}\)
Resolução:
\[\frac{dQ_S}{dP} = 3\]
Quando \(P = 6\): \(\quad Q_S = 3(6) + 6 = 24\)
\[\varepsilon_S = \frac{dQ_S}{dP} \cdot \frac{P}{Q_S} = 3 \times \frac{6}{24} = \frac{18}{24} = \mathbf{\frac{3}{4}}\]
\(\varepsilon_S = 0.75 < 1\) → oferta inelástica.
Note: \(c = 6 > 0\) (intercepto positivo no eixo \(Q\)) → confirma oferta inelástica em todos os pontos.
Resposta: C)
Qual das seguintes afirmações é verdadeira acerca de uma oferta linear que passa pela origem (\(Q_S = bP\), com \(b > 0\))?
A elasticidade aumenta à medida que o preço sobe
A elasticidade é sempre igual a 1, independentemente do preço
A elasticidade é sempre maior do que 1
A elasticidade depende do valor de \(b\)
Resolução:
Para \(Q_S = bP\):
\[\varepsilon_S = \frac{dQ_S}{dP} \cdot \frac{P}{Q_S} = b \cdot \frac{P}{bP} = \frac{bP}{bP} = \mathbf{1}\]
O resultado é exatamente 1 para qualquer valor de \(P\) e qualquer valor de \(b > 0\).
A razão geométrica: a reta passa pela origem, logo o “triângulo” formado pela curva e os eixos mantém sempre a mesma proporção entre \(P\) e \(Q\) em qualquer ponto.
Resposta: B)
A função de oferta de um bem é \(Q_S = 4P - 8\).
(a) Calcule a elasticidade preço da oferta em \(P = 4\), \(P = 6\) e \(P = 10\).
(b) A oferta é elástica, inelástica ou unitária nestes pontos? Justifique geometricamente.
(c) Compare com a oferta \(Q_S' = 4P\). Calcule \(\varepsilon_S\) para \(Q_S'\) nos mesmos preços e interprete a diferença.
Alínea (a): \(\dfrac{dQ_S}{dP} = 4\)
| \(P\) | \(Q_S = 4P-8\) | \(\varepsilon_S = 4 \cdot \dfrac{P}{Q_S}\) | Classificação |
|---|---|---|---|
| 4 | 8 | \(4 \times \dfrac{4}{8} = 2\) | Elástica |
| 6 | 16 | \(4 \times \dfrac{6}{16} = \dfrac{3}{2}\) | Elástica |
| 10 | 32 | \(4 \times \dfrac{10}{32} = \dfrac{5}{4}\) | Elástica |
Alínea (b): A oferta \(Q_S = 4P - 8\) tem intercepto no eixo \(P\) quando \(Q_S = 0 \Rightarrow P = 2 > 0\).
Qualquer oferta linear que corte o eixo \(P\) (e não o eixo \(Q\), nem passe pela origem) é sempre elástica (\(\varepsilon_S > 1\) em todos os pontos).
Alínea (c): Para \(Q_S' = 4P\):
\[\varepsilon_S' = 4 \cdot \frac{P}{4P} = 1 \quad \text{em qualquer } P\]
| \(P\) | \(Q_S = 4P-8\) | \(\varepsilon_S\) | \(Q_S' = 4P\) | \(\varepsilon_S'\) |
|---|---|---|---|---|
| 4 | 8 | 2 | 16 | 1 |
| 6 | 16 | 1.5 | 24 | 1 |
| 10 | 32 | 1.25 | 40 | 1 |
Interpretação
Ambas as ofertas têm o mesmo declive (\(d=4\)), mas \(Q_S = 4P - 8\) passa pelo ponto \((0, 2)\) no eixo \(P\) — o produtor só começa a oferecer acima de \(P = 2\). Esta “barreira de entrada” torna a oferta mais elástica do que a que passa pela origem, onde o produtor oferece desde \(P = 0\).
Fórmula: \(\varepsilon_S = \dfrac{dQ_S}{dP} \cdot \dfrac{P}{Q_S} \geq 0\) sempre
Regra geométrica para oferta linear:
Fatores determinantes:
A seguir: como os impostos se repartem entre consumidores e produtores — e porque é que a relação \(|\varepsilon_D|/\varepsilon_S\) determina exatamente essa repartição.
Imposto Específico (lump-sum)
Um imposto indireto específico é um montante fixo \(I\) cobrado por cada unidade produzida e vendida, independentemente do preço. Exemplos: ISV (Imposto sobre Veículos), ISP (Imposto sobre os Combustíveis).
O lançamento do imposto cria uma cunha entre o preço pago pelo consumidor (\(P_D\)) e o preço recebido pelo produtor (\(P_S\)):
\[\boxed{P_D = P_S + I}\]
Incidência legal vs. económica
Normalmente é o produtor quem entrega o imposto ao Estado (incidência legal). Mas a incidência económica — quem efetivamente suporta o custo — é partilhada entre consumidores e produtores, dependendo das elasticidades.
O sistema de equilíbrio após lançamento do imposto \(I\):
\[\begin{cases} Q_D = f_D(P_D) \\ Q_S = f_S(P_S) \\ Q_D = Q_S \\ P_D = P_S + I \end{cases}\]
Graficamente: a oferta “vista pelo consumidor” desloca-se para cima em \(I\) unidades — o consumidor paga \(I\) a mais por cada unidade, pelo que a oferta aparece distorcida.
Atenção
A oferta de mercado não se contrai — os produtores não alteram a sua disposição a produzir. O que muda é o preço que os consumidores enfrentam para cada nível de oferta.
O imposto total \(I\) é suportado em partes pelos dois lados do mercado:
\[I = \underbrace{(P_D - P^*)}_{\text{incidência no consumidor: } I_D} + \underbrace{(P^* - P_S)}_{\text{incidência no produtor: } I_S}\]
No exemplo (\(Q_D = 100 - P\), \(Q_S = 3P\), \(I = 10\)):
\[I_D = 32.5 - 25 = 7.5 \qquad I_S = 25 - 22.5 = 2.5\]
Os consumidores suportam 75% do imposto; os produtores apenas 25%. Porquê esta assimetria?
| Antes do imposto | Após imposto | |
|---|---|---|
| Excedente do Consumidor | \(EC_0\) | \(EC_0 - I_D \cdot Q_I - \frac{1}{2}I_D\cdot\Delta Q\) |
| Excedente do Produtor | \(EP_0\) | \(EP_0 - I_S \cdot Q_I - \frac{1}{2}I_S\cdot\Delta Q\) |
| Receita Fiscal | 0 | \(I \times Q_I\) |
| Perda Pura de Excedente | 0 | \(\frac{1}{2} \cdot I \cdot \Delta Q > 0\) |
Perda Pura de Excedente (PPE)
O imposto gera sempre uma perda pura de excedente (triângulo de Harberger) porque reduz a quantidade transacionada abaixo do nível socialmente ótimo. A soma do que consumidores e produtores perdem excede a receita fiscal arrecadada pelo Estado. \[PPE = \frac{1}{2} \cdot I \cdot (Q^* - Q_I)\]
\(Q_D = 100 - P\), \(\quad Q_S = 3P\), \(\quad I = 10\)
Sem imposto: \(100 - P = 3P \Rightarrow P^* = 25\), \(Q^* = 75\)
Com imposto (\(P_D = P_S + 10\), \(Q_D = Q_S\)):
\[100 - P_D = 3P_S \quad \text{e} \quad P_D = P_S + 10 \implies P_S = 22.5,\quad P_D = 32.5,\quad Q_I = 67.5\]
\[I_D = 32.5 - 25 = 7.5 \qquad I_S = 25 - 22.5 = 2.5 \qquad \text{Receita Fiscal} = 10 \times 67.5 = 675\]
\[PPE = \tfrac{1}{2}\times 10 \times (75 - 67.5) = \mathbf{37.5}\]
| Antes do imposto | Após imposto | Variação | |
|---|---|---|---|
| Excedente Consumidor | \(2812.5\) | \(2278.1\) | \(-534.4\) |
| Excedente Produtor | \(937.5\) | \(759.4\) | \(-178.1\) |
| Receita Fiscal | \(0\) | \(675.0\) | \(+675.0\) |
| Perda Pura | \(0\) | \(37.5\) |
Verificação: \(534.4 + 178.1 = 712.5 = 675 + 37.5\) ✓
A soma das perdas de EC e EP excede a receita fiscal em exatamente 37.5 — a perda pura de excedente.
A forma como o imposto se reparte entre consumidores e produtores depende exclusivamente das elasticidades de cada lado:
\[\boxed{\frac{|\varepsilon_D|}{\varepsilon_S} = \frac{I_S}{I_D}}\]
Interpretação:
Intuição económica
O lado do mercado menos elástico (menos capaz de ajustar o seu comportamento face ao preço) suporta uma maior parte do imposto.
\(Q_D = 100 - P\), \(\quad Q_S = 3P\), avaliadas em \(P^* = 25\), \(Q^* = 75\):
\[|\varepsilon_D| = \left|-1 \times \frac{25}{75}\right| = \frac{1}{3} \qquad \varepsilon_S = 3 \times \frac{25}{75} = 1\]
\[\frac{|\varepsilon_D|}{\varepsilon_S} = \frac{1/3}{1} = \frac{1}{3}\]
\[\frac{I_S}{I_D} = \frac{2.5}{7.5} = \frac{1}{3} \quad \checkmark\]
A oferta é mais elástica que a procura → os consumidores suportam ¾ do imposto.
Princípio da distorção mínima
Quanto maiores as elasticidades de ambos os lados do mercado, maior a distorção na quantidade transacionada e, portanto, maior a perda pura de excedente para o mesmo imposto \(I\).
\[PPE = \frac{1}{2} \cdot I \cdot \underbrace{(Q^* - Q_I)}_{\text{distorção}} \quad \text{cresce com } |\varepsilon_D| \text{ e } \varepsilon_S\]
Implicações para política fiscal:
No mercado de um bem, \(Q_D = 60 - 2P\) e \(Q_S = 4P\). É lançado um imposto específico \(I = 6\). Qual o preço que os consumidores pagam (\(P_D\)) e o preço que os produtores recebem (\(P_S\)) após o imposto?
\(P_D = 14\), \(P_S = 8\)
\(P_D = 12\), \(P_S = 6\)
\(P_D = 13\), \(P_S = 7\)
\(P_D = 16\), \(P_S = 10\)
Sistema de equilíbrio:
\[\begin{cases} 60 - 2P_D = 4P_S \\ P_D = P_S + 6 \end{cases}\]
Substituindo \(P_D = P_S + 6\):
\[60 - 2(P_S + 6) = 4P_S \implies 60 - 2P_S - 12 = 4P_S \implies 48 = 6P_S\]
\[P_S = 8, \quad P_D = 14, \quad Q_I = 60 - 2(14) = 32\]
Verificação: \(Q_S = 4 \times 8 = 32\) ✓ \(\quad\) \(P_D - P_S = 14 - 8 = 6 = I\) ✓
Resposta: A)
Continuando o exercício anterior (\(Q_D = 60 - 2P\), \(Q_S = 4P\), \(P^* = 10\), \(Q^* = 40\), após imposto \(I = 6\): \(P_D = 14\), \(P_S = 8\)). Qual a afirmação correta?
Os consumidores e produtores suportam o imposto em partes iguais
Os consumidores suportam mais, porque \(|\varepsilon_D| < \varepsilon_S\)
Os produtores suportam mais, porque \(|\varepsilon_D| < \varepsilon_S\)
Os consumidores suportam mais, porque \(|\varepsilon_D| > \varepsilon_S\)
Incidência:
\[I_D = P_D - P^* = 14 - 10 = 4 \qquad I_S = P^* - P_S = 10 - 8 = 2\]
Elasticidades em \(P^* = 10\), \(Q^* = 40\):
\[|\varepsilon_D| = \left|-2 \times \frac{10}{40}\right| = 0.5 \qquad \varepsilon_S = 4 \times \frac{10}{40} = 1\]
\[\frac{|\varepsilon_D|}{\varepsilon_S} = \frac{0.5}{1} = 0.5 = \frac{I_S}{I_D} = \frac{2}{4} \quad \checkmark\]
\(|\varepsilon_D| < \varepsilon_S\) → a procura é menos elástica → consumidores suportam mais (\(I_D = 4 > I_S = 2\)).
Resposta: B)
O mercado de um bem tem: \[Q_D = 80 - 2P \qquad Q_S = 2P\]
(a) Determine o equilíbrio sem imposto: \(P^*\) e \(Q^*\).
(b) É lançado um imposto específico \(I = 8\). Determine \(P_D\), \(P_S\) e \(Q_I\).
(c) Calcule \(I_D\) e \(I_S\). Verifique com as elasticidades que a repartição é coerente.
(d) Calcule a receita fiscal e a perda pura de excedente.
Alínea (a): Sem imposto
\[80 - 2P = 2P \implies 4P = 80 \implies P^* = 20, \quad Q^* = 40\]
Alínea (b): Com imposto \(I = 8\)
\[\begin{cases} 80 - 2P_D = 2P_S \\ P_D = P_S + 8 \end{cases}\]
Substituindo: \(80 - 2(P_S + 8) = 2P_S \implies 64 = 4P_S\)
\[P_S = 16, \quad P_D = 24, \quad Q_I = 80 - 2(24) = 32\]
Verificação: \(Q_S = 2 \times 16 = 32\) ✓
Alínea (c): Incidência e elasticidades
\[I_D = 24 - 20 = 4 \qquad I_S = 20 - 16 = 4\]
O imposto é repartido igualmente: cada lado suporta 4.
Elasticidades em \(P^* = 20\), \(Q^* = 40\):
\[|\varepsilon_D| = \left|-2 \times \frac{20}{40}\right| = 1 \qquad \varepsilon_S = 2 \times \frac{20}{40} = 1\]
\[\frac{|\varepsilon_D|}{\varepsilon_S} = \frac{1}{1} = 1 = \frac{I_S}{I_D} = \frac{4}{4} \quad \checkmark\]
Como \(|\varepsilon_D| = \varepsilon_S\), as elasticidades são iguais e o imposto reparte-se simetricamente.
Alínea (d): Receita fiscal e PPE
\[\text{Receita Fiscal} = I \times Q_I = 8 \times 32 = 256\]
\[PPE = \frac{1}{2} \times I \times (Q^* - Q_I) = \frac{1}{2} \times 8 \times (40 - 32) = \frac{1}{2} \times 8 \times 8 = 32\]
Verificação via excedentes
\(EC_0 = \frac{(40-20)\times 40}{2} = 400\); \(\quad EC_1 = \frac{(40-24)\times 32}{2} = 256\); \(\quad \Delta EC = -144\)
\(EP_0 = \frac{20 \times 40}{2} = 400\); \(\quad EP_1 = \frac{16 \times 32}{2} = 256\); \(\quad \Delta EP = -144\)
\(\Delta EC + \Delta EP = -288 = -(256 + 32) = -(\text{Receita} + PPE)\) ✓
Imposto específico cria uma cunha \(P_D = P_S + I\), reduzindo a quantidade transacionada e gerando:
Incidência económica — quem suporta mais o imposto:
\[\frac{|\varepsilon_D|}{\varepsilon_S} = \frac{I_S}{I_D}\]
O lado menos elástico suporta proporcionalmente mais.
Relação com PPE:
Num mercado competitivo sem intervenção do Estado, o equilíbrio \(E^*=(Q^*, P^*)\) maximiza o excedente económico total.
Nota
Excedente Económico = Excedente do Consumidor + Excedente do Produtor
\[XE = EC + EP\]
O excedente económico é máximo no equilíbrio competitivo (sem falhas de mercado).
Nota
Subsídio Específico (\(S\)): O Estado paga aos produtores (ou consumidores) uma quantia fixa por cada unidade transacionada.
A condição de equilíbrio com subsídio fica:
\[P_D = P_S - S\]
onde \(P_D\) é o preço pago pelo consumidor e \(P_S\) é o preço recebido pelo produtor.
O novo equilíbrio resolve o sistema:
\[\begin{cases} Q_D = f_D(P_D) \\ Q_S = f_S(P_S) \\ Q_D = Q_S \\ P_D = P_S - S \end{cases}\]
Sem intervenção: \(P^* = 25\), \(Q^* = 75\)
Com subsídio \(S = 10\) u.m.:
\[\begin{cases} Q_D = 100 - P_D \\ Q_S = 3P_S \\ Q_D = Q_S \\ P_D = P_S - 10 \end{cases}\]
Substituindo: \(100 - P_D = 3P_S = 3(P_D + 10)\)
\(100 - P_D = 3P_D + 30 \Rightarrow 4P_D = 70 \Rightarrow P_D = 17.5\)
\(P_S = 17.5 + 10 = 27.5\) e \(Q_I = 3 \times 27.5 = 82.5\)
A oferta \(S'\) representa a oferta distorcida pelo subsídio, vista pelo consumidor: \(Q_S = 3(P_D + 10) = 3P_D + 30\).
Importante
Incidência Económica do Subsídio
A forma como o benefício do subsídio se reparte entre consumidores e produtores não depende de quem recebe o subsídio (incidência legal), mas das elasticidades da procura e da oferta.
No exemplo (\(S = 10\) u.m.):
| Preço | Variação face a \(P^*=25\) | |
|---|---|---|
| Consumidor paga | \(P_D = 17.5\) | \(I_D = 25 - 17.5 = 7.5\) u.m. |
| Produtor recebe | \(P_S = 27.5\) | \(I_S = 27.5 - 25 = 2.5\) u.m. |
| Total | \(I_D + I_S = 10\) u.m. \(= S\) ✓ |
A repartição do subsídio entre consumidores e produtores obedece à mesma lógica dos impostos:
\[\frac{I_S}{I_D} = \frac{|\varepsilon_D|}{\varepsilon_S}\]
No exemplo:
\[\frac{I_S}{I_D} = \frac{1/3}{1} = \frac{1}{3} \qquad \checkmark \quad \left(\frac{2.5}{7.5} = \frac{1}{3}\right)\]
Nota
Quanto mais rígida for a procura (ou a oferta) face à oferta (ou procura), maior será a incidência do subsídio sobre esse lado do mercado.
O Estado financia o subsídio com despesa fiscal:
\[\text{Despesa Fiscal} = S \times Q_I\]
No exemplo: \(\text{DF} = 10 \times 82.5 = 825\) u.m.
Esta despesa reparte-se entre ganhos de excedente e perda pura:
\[\text{Despesa Fiscal} = \Delta EC + \Delta EP + \text{Perda Pura}\]
| Antes do subsídio | Após subsídio | Variação | |
|---|---|---|---|
| Excedente do Consumidor | \(EC_0\) | \(EC_1 > EC_0\) | \(+\Delta EC\) |
| Excedente do Produtor | \(EP_0\) | \(EP_1 > EP_0\) | \(+\Delta EP\) |
| Despesa Fiscal (Estado) | — | \(S \times Q_I\) | — |
| Perda Pura | — | \(\frac{1}{2}S(Q_I-Q^*)\) | — |
| Quantidade | \(Q^*\) | \(Q_I > Q^*\) | — |
| Preço consumidor | \(P^*\) | \(P_D < P^*\) | \(-I_D\) |
| Preço produtor | \(P^*\) | \(P_S > P^*\) | \(+I_S\) |
Aviso
O subsídio cria uma perda pura de excedente económico: parte da despesa fiscal não é apropriada nem pelos consumidores nem pelos produtores. O subsídio é distorcionário.
A perda pura corresponde ao triângulo entre as curvas de oferta e procura, para as unidades entre \(Q^*\) e \(Q_I\):
\[\text{PP} = \frac{1}{2} \times S \times (Q_I - Q^*)\]
No exemplo:
\[\text{PP} = \frac{1}{2} \times 10 \times (82.5 - 75) = \frac{1}{2} \times 10 \times 7.5 = 37.5 \text{ u.m.}\]
Verificação: \[\text{DF} = 825; \quad \Delta EC = 590.6; \quad \Delta EP = 196.9\] \[825 - 590.6 - 196.9 = 37.5 \text{ u.m.} \checkmark\]
O subsídio leva à transação de unidades entre \(Q^*\) e \(Q_I\) onde:
\[\text{Valorização do Consumidor} < \text{Custo de Produção}\]
Num mercado competitivo, a procura e a oferta são descritas por \(Q_D = 200 - 2P\) e \(Q_S = -20 + 3P\). O Estado decide introduzir um subsídio específico de 15 u.m. por unidade transacionada.
Qual o novo equilíbrio após o subsídio?
\(P_D = 38\); \(P_S = 53\); \(Q_I = 124\)
\(P_D = 35\); \(P_S = 50\); \(Q_I = 130\)
\(P_D = 32\); \(P_S = 47\); \(Q_I = 136\)
\(P_D = 37\); \(P_S = 52\); \(Q_I = 126\)
Dica
Resposta correta: (B)
Sem subsídio: \(200-2P = -20+3P \Rightarrow 5P = 220\), logo \(P^*=44\) e \(Q^*=112\)
Com \(S=15\): \(\begin{cases} Q_D = 200 - 2P_D \\ Q_S = -20 + 3P_S \\ P_D = P_S - 15 \end{cases}\)
Substituindo \(P_D = P_S - 15\):
\[\begin{aligned} 200 - 2(P_S-15) &= -20 + 3P_S \\ 200 - 2P_S + 30 &= -20 + 3P_S \\ 5P_S &= 250 \;\Rightarrow\; P_S = 50 \end{aligned}\]
\(P_D = 50 - 15 = 35\); \(Q_I = 200 - 2(35) = 130\)
Incidência: \(I_D = 44 - 35 = 9\) u.m.; \(I_S = 50 - 44 = 6\) u.m.; DF \(= 15 \times 130 = 1950\) u.m.
No mesmo mercado (\(Q_D = 200 - 2P\); \(Q_S = -20 + 3P\); \(P^*=44\); \(Q^*=112\)), com o subsídio de 15 u.m., qual a perda pura de excedente económico?
90 u.m.
270 u.m.
135 u.m.
54 u.m.
Dica
Resposta correta: (C)
A perda pura é o triângulo com base \(S = 15\) e altura \((Q_I - Q^*) = 130 - 112 = 18\):
\[\text{PP} = \frac{1}{2} \times 15 \times 18 = 135 \text{ u.m.}\]
Verificação:
A procura e a oferta de um mercado são descritas por:
\[Q_D = 100 - P \qquad Q_S = 2P - 20\]
O Estado decide introduzir um subsídio específico de 9 u.m. por unidade transacionada.
(a) Determine o equilíbrio de mercado sem intervenção.
(b) Determine o novo equilíbrio após o subsídio. Quais os preços \(P_D\) e \(P_S\)?
(c) Calcule a incidência económica do subsídio sobre consumidores e produtores, e relacione com as elasticidades.
(d) Calcule a despesa fiscal do Estado e a perda pura de excedente económico.
(a) Equilíbrio sem intervenção
\(100 - P = 2P - 20 \Rightarrow 3P = 120 \Rightarrow P^* = 40\); \(Q^* = 60\)
(b) Com subsídio \(S = 9\)
Sistema: \(Q_D = Q_S\) e \(P_D = P_S - 9\)
\(100 - P_D = 2P_S - 20 = 2(P_D + 9) - 20\)
\(100 - P_D = 2P_D + 18 - 20 \Rightarrow 102 = 3P_D \Rightarrow P_D = 34\)
\(P_S = 34 + 9 = 43\) ; \(Q_I = 100 - 34 = 66\)
(c) Incidência económica
Relação com elasticidades (calculadas em \(P^*=40\), \(Q^*=60\)):
\[\varepsilon_D = \frac{dQ_D}{dP}\cdot\frac{P^*}{Q^*} = -1 \times \frac{40}{60} = -\frac{2}{3}\]
\[\varepsilon_S = \frac{dQ_S}{dP}\cdot\frac{P^*}{Q^*} = 2 \times \frac{40}{60} = \frac{4}{3}\]
\[\frac{I_S}{I_D} = \frac{3}{6} = \frac{1}{2} = \frac{|\varepsilon_D|}{\varepsilon_S} = \frac{2/3}{4/3} = \frac{1}{2} \checkmark\]
(d) Despesa fiscal e perda pura
Despesa Fiscal: \[\text{DF} = S \times Q_I = 9 \times 66 = 594 \text{ u.m.}\]
Perda Pura: \[\text{PP} = \frac{1}{2} \times S \times (Q_I - Q^*) = \frac{1}{2} \times 9 \times (66 - 60) = \frac{1}{2} \times 9 \times 6 = 27 \text{ u.m.}\]
Verificação via excedentes:
| Antes | Depois | Variação | |
|---|---|---|---|
| \(EC = \frac{(100-P_D)\cdot Q}{2}\) | 1800 | 2178 | \(+378\) |
| \(EP = \frac{(P_S - 10)\cdot Q}{2}\) | 900 | 1089 | \(+189\) |
| \(\text{DF}\) | — | 594 | — |
| PP \(= \text{DF} - \Delta EC - \Delta EP\) | — | — | \(594 - 378 - 189 = 27\) ✓ |
| Subsídio | |
|---|---|
| Objetivo | Incentivar a produção/consumo de um bem |
| Efeito no preço do consumidor | \(P_D < P^*\) |
| Efeito no preço do produtor | \(P_S > P^*\) |
| Efeito na quantidade | \(Q_I > Q^*\) |
| Custo para o Estado | \(\text{DF} = S \times Q_I\) |
| Distribuição do benefício | Depende de \(\varepsilon_D\) e \(\varepsilon_S\) |
| Perda Pura | \(\text{PP} = \frac{1}{2} S (Q_I - Q^*)\) |
| É distorcionário? | Sim |
Aviso
Um subsídio, mesmo bem intencionado, implica sempre uma perda pura de excedente económico — salvo no caso-limite de procura ou oferta perfeitamente rígidas (\(|\varepsilon| = 0\)), onde \(Q_I = Q^*\) e PP \(= 0\).
Nesta secção: o Estado fixa diretamente o preço — controlo de preços
Definição
Um preço máximo (\(P_{max}\)) impede que o preço suba acima de um tecto fixado pelo Estado. Um preço mínimo (\(P_{min}\)) impede que o preço desça abaixo de um piso. Quando vinculativos, impedem o mercado de atingir o equilíbrio competitivo.
Para fixar um preço máximo:
Para fixar um preço mínimo:
Importante
A economia positiva não diz que estas políticas são “erradas” — analisa as suas consequências. A avaliação normativa depende dos valores da sociedade e dos trade-offs entre eficiência e equidade.
Mercado com \(D: P = 10 - Q\) e \(S: P = 2 + Q\), equilíbrio \(Q^* = 4\), \(P^* = 6\)
Tecto \(P_{max} = 4 < P^*\):
| Competitivo | Com \(P_{max} = 4\) | Variação | |
|---|---|---|---|
| Quantidade transacionada | \(Q^* = 4\) | \(Q_S = 2\) | \(-2\) |
| Excedente do Consumidor | 8 | \(\leq 10\) † | \(\leq\) +2 |
| Excedente do Produtor | 8 | 2 | −6 |
| Excedente Total | 16 | \(\leq 12\) | \(\geq\) −4 |
† máximo teórico — assume racionamento eficiente (bens vão para quem mais valoriza)
Importante
O EP cai sempre: o produtor vende menos a preço mais baixo. O EC depende de quem recebe os \(Q_S = 2\) bens racionados: se vão para os consumidores com maior WTP (EC = 10 > 8), há ganho; mas com racionamento não-preço (fila, relações pessoais, discrição do vendedor) os bens podem ir para quem os valoriza menos — o EC real pode ser inferior a 8. A DWL mínima é 4 (triângulo entre curvas de \(Q_S\) a \(Q^*\)) e cresce com ineficiência alocativa.
Escassez e racionamento não-preço
Quem recebe o bem? Não necessariamente quem mais o valoriza. O racionamento é feito por filas, relações pessoais ou discrição do vendedor — o EC real pode ficar abaixo do valor competitivo.
Degradação da qualidade
Produtores não podem cobrar mais → reduzem custos de manutenção e qualidade para compensar a margem perdida.
Mercado paralelo (mercado negro)
A disposição a pagar dos consumidores excedentários (\(Q_D - Q_S = 4\)) é muito superior a \(P_{max}\) → surgem trocas informais a preços mais altos, muitas vezes ilegais.
Redução da oferta futura
A menor rentabilidade desincentiva novos investimentos. A longo prazo, a oferta pode contrair ainda mais.
Mesmo mercado, piso \(P_{min} = 8 > P^* = 6\):
| Competitivo | Com \(P_{min} = 8\) | Variação | |
|---|---|---|---|
| Quantidade transacionada | \(Q^* = 4\) | \(Q_D = 2\) | \(-2\) |
| Excedente do Consumidor | 8 | 2 | −6 |
| Excedente do Produtor | 8 | \(\leq 10\) † | \(\leq\) +2 |
| Excedente Total | 16 | \(\leq 12\) | \(\geq\) −4 |
† máximo teórico — assume que vendem os \(Q_D = 2\) produtores mais eficientes (menor custo)
Simetria notável
O EC cai sempre: o consumidor compra menos a preço mais alto. O EP depende de quais dos \(Q_S = 6\) produtores conseguem vender os \(Q_D = 2\) bens: se forem os mais eficientes, EP = 10 > 8; se não, EP pode ser inferior a 8. Tal como no \(P_{max}\), o excesso de oferta cria um problema de alocação que agrava as perdas de excedente.
Excesso de oferta (stocks acumulados)
\(Q_S = 6 > Q_D = 2\): produtores não escoam toda a produção. Quem vende? Pode não ser o mais eficiente.
Intervenções secundárias para gerir os excedentes
O Estado pode ser obrigado a comprar os excedentes para manter o preço. Custo para o contribuinte.
Exemplo histórico: «montanhas de manteiga» e «lagos de leite» na Política Agrícola Comum europeia dos anos 1980.
Redução de incentivos à eficiência e qualidade
Se o preço mínimo elimina a pressão competitiva por preço, reduz o incentivo a inovar e a melhorar.
Diamond, McQuade & Qian (2019) — American Economic Review
Estudo quasi-experimental sobre a extensão do controlo de rendas a edifícios com ≤ 4 fogos (construídos antes de 1980), após uma reforma legislativa de 1994 em São Francisco.
Resultados principais:
Importante
Exatamente o previsto pela teoria: os inquilinos existentes beneficiam, mas a oferta total cai e as rendas sobem para quem ainda procura no mercado livre.
Nota
Quando a regulação é parcial, os recursos «fogem» para os segmentos não regulados — agravando a situação de quem não beneficiou do controlo.
Evidência (estudos do Banco de España e Fed. San Francisco, 2023):
Importante
Padrão consistente em três países europeus: controlo de rendas redistribui rendimento a curto prazo, mas contrai a oferta a médio prazo.
O salário mínimo é um \(P_{min}\) no mercado de trabalho.
A teoria standard prevê: \(W_{min} > W^* \Rightarrow\) desemprego involuntário (\(L_S > L_D\)).
Mas a evidência empírica é mais complexa:
1. Monopsónia no mercado de trabalho
Se os empregadores têm poder de mercado, o salário competitivo já está abaixo do ótimo. Um salário mínimo pode aumentar emprego até certo ponto — tal como um \(P_{min}\) num mercado com poder de monopólio do comprador.
2. Custos de rotatividade (turnover)
Com salário mínimo mais alto, os trabalhadores ficam mais tempo nos empregos → menos custos de recrutamento e formação para as empresas.
3. Efeito nos preços finais
Parte do custo salarial extra é transferida para os consumidores via preços mais altos — o ajustamento não é só via quantidade de emprego.
Nota
O debate empírico sobre o salário mínimo foi reconhecido com o Prémio Nobel da Economia de 2021, atribuído a David Card.
A teoria standard sobrestima os custos quando há poder de mercado do lado oposto. A evidência confirma os mecanismos, mas não sempre a magnitude.
A teoria standard conclui que os controlos são ineficientes em mercados perfeitamente competitivos. Mas há casos que alteram a análise:
1. Poder de mercado (monopólio ou monopsónia)
Se o vendedor/comprador já fixa um preço fora do ótimo, um controlo pode melhorar a eficiência.
2. Falhas de informação
Em mercados com assimetria de informação severa, a concorrência de preços pode não funcionar.
3. Objetivos distributivos explícitos
Uma sociedade pode preferir aceitar algum DWL para redistribuir de ricos para pobres — decisão normativa, não positiva.
4. Choques transitórios e emergências
Controlos temporários durante crises podem evitar rendas de extração (price gouging). O custo de eficiência pode ser menor do que os ganhos de estabilidade social.
Artigos científicos citados
O Governo fixa um preço máximo \(P_{max}\) abaixo do preço de equilíbrio \(P^*\). Qual das seguintes afirmações está correta?
A quantidade transacionada aumenta relativamente ao equilíbrio competitivo
Surge um excesso de oferta no mercado
O excedente total diminui relativamente ao equilíbrio competitivo
O excedente do produtor aumenta
O Governo fixa um preço máximo \(P_{max}\) abaixo do preço de equilíbrio \(P^*\). Qual das seguintes afirmações está correta?
Dica
Com \(P_{max} < P^*\), o EP cai sempre. O EC só aumenta se os bens racionados forem para quem mais os valoriza — o que não é garantido. O excedente total é sempre inferior ao equilíbrio competitivo.
Mercado de trabalho: procura \(W = 20 - 2L\), oferta \(W = 4 + L\). Equilíbrio: \(L^* \approx 5.3\), \(W^* \approx 9.3\). É fixado um salário mínimo \(W_{min} = 14\). Qual o desemprego involuntário?
3
7
10
0 — o salário mínimo não tem efeito porque está abaixo de \(W^*\)
Com \(W_{min} = 14 > W^* \approx 9.3\):
Dica
O desemprego involuntário é \(L_S - L_D\), não \(L_S\). Os trabalhadores empregados são \(L_D = 3\); os que querem trabalhar mas não encontram emprego são \(L_S - L_D = 7\).
Mercado de arrendamento: \(D: P = 1000 - 2Q\), \(S: P = 200 + 2Q\) (€/mês; \(Q\) em milhares de fogos).
a) Calcule o equilíbrio competitivo \((Q^*, P^*)\).
b) O Governo fixa \(P_{max} = 400\). Calcule \(Q_S\), \(Q_D\) e a escassez resultante.
c) Calcule o excedente do consumidor, o excedente do produtor e a perda de excedente total (DWL) com o tecto. Confirme que EC + EP + DWL = excedente total competitivo.
d) Com base na evidência empírica (Diamond et al., 2019; Berlim 2020), discuta duas consequências dinâmicas que este modelo estático não captura.
a) \(1000 - 2Q = 200 + 2Q \Rightarrow Q^* = 200\) mil fogos, \(P^* = 600\) €/mês
b) Com \(P_{max} = 400\):
c) Excedentes com \(P_{max} = 400\), \(Q_S = 100\) (assumindo racionamento eficiente):
| Área | Forma | Cálculo | Valor |
|---|---|---|---|
| EC | trapézio acima \(P_{max}\) sob procura | \(\frac{(1000-400)+(800-400)}{2}\times 100\) | 50,000 |
| EP | triângulo acima oferta sob \(P_{max}\) | \(\frac{(400-200)}{2}\times 100\) | 10,000 |
| DWL | triângulo entre curvas de \(Q_S\) a \(Q^*\) | \(\frac{(800-400)}{2}\times(200-100)\) | 20,000 |
| Total | \(50{,}000+10{,}000+20{,}000\) | 80,000 ✓ |
Aviso
EC = 50,000 é o máximo: assume que os \(Q_S = 100\) fogos vão para os 100 arrendatários de maior valorização. Com racionamento não-preço, o EC real pode ser inferior — a DWL efetiva superior a 20,000.
d) Duas consequências dinâmicas não capturadas pelo modelo estático:
(1) Contração da oferta a médio prazo
Os senhorios convertem habitação em outros usos com maior rendibilidade — alojamento local (Airbnb), escritórios, venda. A oferta de arrendamento regulado encolhe. Diamond et al. (2019) estimam uma redução de 15% no parque de arrendamento em São Francisco após a extensão do controlo de rendas.
(2) Degradação da qualidade
Sem possibilidade de aumentar o preço, os senhorios têm menos incentivo a investir em manutenção e renovação. A qualidade do parque habitacional regulado deteriora-se progressivamente.
Dica
Em ambos os casos, o efeito final é o oposto do pretendido: a médio prazo, quem procura habitação a preço acessível encontra menos oferta e pior qualidade.