Monopólio e Poder de Mercado
| Característica | Conc. Perfeita | Oligopólio | Conc. Monopolística | Monopólio |
|---|---|---|---|---|
| N.º de empresas | Muitas | Poucas | Muitas | Uma |
| Produto | Homogéneo | Homo/Difer. | Diferenciado | Único |
| Poder de mercado | Nenhum | Elevado | Algum | Máximo |
| Barreiras entrada | Nenhuma | Elevadas | Baixas | Intransponíveis |
| P vs. Cmg | \(P = Cmg\) | \(P > Cmg\) | \(P > Cmg\) | \(P > Cmg\) |
Nota
O monopólio é o caso polar oposto à concorrência perfeita. Analisamos os dois extremos para depois entender os casos intermédios.
Para existir monopólio, a entrada de rivais tem de ser impedida:
Importante
Sem barreiras à entrada, lucros positivos atrairiam concorrentes e o monopólio desapareceria. As barreiras são a condição necessária.
Em concorrência perfeita, a empresa é price-taker:
\[P = \bar{P} \quad \Rightarrow \quad RT = \bar{P} \cdot Q\]
O monopolista enfrenta a curva de procura do mercado \(\rightarrow\) é price-maker:
\[P = P(Q) \quad \text{(função decrescente)} \quad \Rightarrow \quad RT = P(Q) \cdot Q\]
Para vender mais, o monopolista tem de baixar o preço, e essa descida aplica-se a todas as unidades vendidas.
Com procura inversa linear \(P = a - bQ\):
\[RT = (a - bQ) \cdot Q = aQ - bQ^2\]
A receita marginal é:
\[Rmg = \frac{dRT}{dQ} = a - 2bQ\]
Importante
Rmg tem o dobro do declive (em módulo) da curva de procura inversa.
Se \(P = a - bQ\), então \(Rmg = a - 2bQ\).
\[Rmg = P + Q \frac{dP}{dQ}\]
Como \(\dfrac{dP}{dQ} < 0\) e \(Q > 0\), temos \(Q \dfrac{dP}{dQ} < 0\), portanto:
\[\boxed{Rmg < P}\]
Intuição: para vender uma unidade adicional, o monopolista baixa o preço. O ganho dessa unidade é \(P\), mas perde \(Q \cdot |dP/dQ|\) nas unidades anteriores.
\[Rmg = P\!\left(1 + \frac{1}{\varepsilon_D}\right) = P\!\left(1 - \frac{1}{|\varepsilon_D|}\right)\]
| Zona da procura | \(|\varepsilon_D|\) | \(Rmg\) | \(RT\) ao aumentar \(Q\) |
|---|---|---|---|
| Elástica | \(> 1\) | \(> 0\) | Aumenta |
| Unitária | \(= 1\) | \(= 0\) | Máxima |
| Rígida | \(< 1\) | \(< 0\) | Diminui |
Nota
O monopolista nunca opera na zona rígida: baixar o preço aumentaria \(Q\) mas reduziria \(RT\) — e os custos também aumentariam. Logo, \(\Pi\) diminuiria de forma garantida.
O monopolista maximiza o lucro:
\[\max_Q \ \Pi = RT(Q) - CT(Q)\]
Condição de primeira ordem:
\[\frac{d\Pi}{dQ} = 0 \iff \underbrace{\frac{dRT}{dQ}}_{Rmg} - \underbrace{\frac{dCT}{dQ}}_{Cmg} = 0\]
\[\boxed{Rmg = Cmg}\]
Importante
A regra \(Rmg = Cmg\) é a mesma que em concorrência perfeita.
A diferença: em CP, \(Rmg = P\); em monopólio, \(Rmg < P\).
Logo, o preço de monopólio está acima do custo marginal.
Em CP, a curva de oferta é \(P = Cmg(Q)\): para cada preço, a empresa escolhe \(Q\).
No monopólio, o preço não é dado \(\rightarrow\) é determinado pela procura:
\[Q^* \leftarrow Rmg = Cmg \quad \Rightarrow \quad P^* = D(Q^*)\]
O mesmo \(Q^*\) pode corresponder a preços diferentes conforme a procura mude: não há uma relação unívoca preço-quantidade.
Nota
Não existe curva de oferta do monopolista. A decisão de produção depende sempre da curva de procura enfrentada.
Nota
Note que o ponto de otimização \(Rmg = Cmg\) fica abaixo do preço. O preço lê-se sempre na curva de procura à quantidade ótima.
| Concorrência Perfeita | Monopólio | |
|---|---|---|
| Quantidade | \(Q_{cp} = 8\) | \(Q_m = 4\) |
| Preço | \(P_{cp} = 2\) | \(P_m = 6\) |
| Excedente do Consumidor | \(32\) (A+B+C) | \(8\) (A) |
| Excedente do Produtor | \(0\) | \(16\) (B) |
| Excedente Total | \(32\) | \(24\) |
| Perda de Excedente (DWL) | — | \(8\) (C) |
Importante
O monopólio é ineficiente: a área C representa valor destruído — nem consumidores nem produtor a obtêm. Há transações mutuamente vantajosas que não se realizam porque \(P_m > Cmg\).
Em concorrência perfeita: \(P = Cmg\): todas as unidades para as quais a disposição a pagar supera o custo são produzidas.
Em monopólio: \(P > Cmg\), entre \(Q_m = 4\) e \(Q_{cp} = 8\), há unidades cujo valor para o consumidor (\(< P_m\) mas \(> Cmg\)) nunca são produzidas.
Nota
O produtor não produz essas unidades porque baixar o preço implicaria também baixá-lo nas unidades anteriores: o mecanismo de price-making gera a ineficiência.
Uma empresa monopolista enfrenta a procura \(P = 12 - 2Q\) e tem custo marginal constante \(Cmg = 4\). A quantidade ótima de produção é:
\(Rmg = 12 - 4Q\) (declive duplo da procura inversa).
Condição: \(Rmg = Cmg \Rightarrow 12 - 4Q = 4 \Rightarrow Q^* = 2\).
Resposta: (a)
Preço: \(P^* = 12 - 2(2) = 8\).
Comparando monopólio com concorrência perfeita (mesmos custos e procura), é sempre verdade que:
Resposta: (b)
Uma empresa monopolista opera num mercado com procura inversa \(P = 10 - Q\).
Os seus custos são: \(CT = 2Q + 4\) (custo fixo \(CF = 4\), custo marginal \(Cmg = 2\)).
Alíneas:
a) \(RT = (10-Q)Q = 10Q - Q^2 \Rightarrow Rmg = 10 - 2Q\)
b) \(Rmg = Cmg \Rightarrow 10 - 2Q = 2 \Rightarrow Q^* = 4\)
\(P^* = 10 - 4 = 6\)
c) \(CTM(4) = 2 + 4/4 = 3 \Rightarrow \Pi^* = (P^* - CTM) \cdot Q^* = (6-3)\cdot 4 = 12\)
Ou diretamente: \(\Pi = RT - CT = 6 \cdot 4 - (2 \cdot 4 + 4) = 24 - 12 = 12\) ✓
d) \(XD_m = \frac{1}{2}(10-6)\cdot 4 = 8\) (triângulo acima de \(P^*\))
\(XS_m = (P^* - Cmg)\cdot Q^* = (6-2)\cdot 4 = 16\) (retângulo, \(Cmg\) constante)
e) \(P = Cmg \Rightarrow 10 - Q = 2 \Rightarrow Q_{cp} = 8,\ P_{cp} = 2\)
f) \(DWL = \frac{1}{2}(P_m - P_{cp})(Q_{cp} - Q_m) = \frac{1}{2}(6-2)(8-4) = 8\)
O monopólio impede a realização de transações entre \(Q=4\) e \(Q=8\) que seriam mutuamente vantajosas (disposição a pagar \(> Cmg = 2\)), destruindo \(8\) unidades de excedente total.
Considere o seguinte cenário:
A pergunta que interessa: seria melhor ter aqui mais do que uma empresa?
Excedente total: \(A + B - F\), onde \(F\) é o custo do investimento inicial necessário.
Admita agora que entra uma segunda empresa e que, por efeito da concorrência, o preço desce ao nível do custo marginal:
\[p^* = c\]
O mercado passa a servir mais consumidores — mas o investimento inicial \(F\) passa a ser feito duas vezes.
Excedente total: \(A + B + C - 2F\).
Compare os dois excedentes:
\[ \begin{aligned} A+B+C-2F &> A+B-F \\ C-F &> 0 \\ C &> F \end{aligned} \]
Conclusão
A entrada da segunda empresa só é uma melhoria se o investimento inicial \(F\) for menor que a área \(C\). Nem sempre acabar com um monopólio melhora o bem-estar.
Economias de escala em conjunto com uma procura de mercado pequena podem reunir as condições para um monopólio natural: apenas uma empresa é economicamente viável, porque consegue ter custos menores ao concentrar a produção.
É a chamada subaditividade de custos na indústria.
A subaditividade da função de custos é condição necessária e suficiente para que um setor seja considerado monopólio natural.
— Baumol, American Economic Review, 1977
A função de custos é subaditiva se o custo de produzir a quantidade \(q\) com mais do que uma empresa é superior ao custo de a produzir com uma só.
Mesmas economias de escala, resultados diferentes — o que muda é a dimensão da procura.
O equilíbrio de um mercado concorrencial maximiza o excedente económico. Nesse equilíbrio:
Ao exercer o seu poder de mercado, o monopolista afasta-se desse equilíbrio e gera uma perda de excedente económico.
É preferível haver um monopólio natural do que não existir mercado de todo.
Para evitar que a empresa abuse do consumidor, há normalmente regulação de preços (um preço máximo, por exemplo) — até porque o monopólio natural surge tipicamente em setores de infraestruturas que garantem serviços públicos, onde não seria aceitável praticar preços muito altos.
Uma solução frequente é regular o preço para que o monopolista cobre um preço igual ao custo médio de produção, ficando na prática com lucro zero.
É uma situação de second best, já que não é viável ter \(P = Cmg\) (first best) — são os chamados preços de Ramsey.
Para que as empresas sigam esta política, o Estado tem de pagar indemnizações compensatórias, que em teoria se deveriam aproximar do lucro que teriam se pudessem cobrar o preço maximizador.
Aviso
As empresas perdem o incentivo a melhorar a produtividade e a baixar os custos.
Outra solução implementada tem sido fixar preços máximos e mantê-los por algum tempo.
No início, os preços são fixados com base nos custos de hoje da empresa, de modo a que esta tenha lucros baixos ou nulos.
A empresa passa a ter incentivo a melhorar a produtividade: consegue ficar com os ganhos durante os anos em que o preço está fixo.
Aviso
O Governo tem incentivo a atualizar os preços no fim do período, incorporando as reduções de custo já conseguidas. Antecipando isso, a empresa esforça-se menos: sabe que baixar custos hoje significa preços máximos menores amanhã.
Em geral, é a capacidade de uma empresa influenciar o preço de venda do seu produto — e, em mercados oligopolistas, também o preço praticado pelas empresas concorrentes — através da manipulação da sua variável estratégica:
Prática que consiste em fixar preços diferentes para o mesmo produto, em função da quantidade comprada e/ou da disponibilidade a pagar do consumidor, em situações em que as empresas têm poder de mercado.
A discriminação ocorre quando uma empresa cobra preços diferentes:
Para que a discriminação de preços funcione, duas condições têm de se verificar:
Repare que basta falhar uma delas para a estratégia colapsar.
Nota
O objetivo é sempre o mesmo: transformar excedente do consumidor em receita. É uma forma de exercer poder de mercado.
Conjunto de políticas e leis que garantem que a concorrência no mercado não é restringida de forma a reduzir o bem-estar social.
— Massimo Motta
Mesmo em mercados que funcionariam concorrencialmente, as forças de mercado podem não levar ao resultado eficiente, porque as empresas:
O comportamento concertado entre empresas — cartelização, conluio — corresponde ao estabelecimento, por acordo, de:
O acordo pode ser explícito ou implícito (conluio tácito), e permite às empresas envolvidas usufruir de um poder de mercado que de outra forma não teriam.
Um comportamento é predatório se tem como objetivo proteger ou aumentar o poder de mercado de uma empresa dominante, através da exclusão ou eliminação de concorrentes por razões que não a sua eficiência.
A exclusão pode fazer-se pela prática de preços baixos pela empresa dominante, que reduzem as receitas dos concorrentes.