Microeconomia

Conceitos Fundamentais

Autores
Afiliação

Introdução e Conceitos Fundamentais

Introdução e Apresentação

Informações da Cadeira

Regência

  • Regente: Paulo Fagandini
    📧 pfagandini@iscal.ipl.pt

Como Estudar

  • Não há aulas neste semestre: estes slides cobrem a totalidade da matéria avaliada
  • Os slides dão especial atenção à parte matemática, frequentemente a mais exigente
  • Conceitos mais básicos e definições nas referências bibliográficas obrigatórias
  • Para praticar: um caderno de exercícios por capítulo

. . .

Bibliografia recomendada:

:book: Princípios de microeconomia, António José Morgado, Paulo Ferreira, 2ed, Rei dos Livros, 2021.
:book: Exercícios de microeconomia, António José Morgado, Paulo Ferreira. 2ed, Rei dos Livros, 2021.

Avaliação

  • Exame único (100%), presencial e escrito, sobre toda a matéria (Capítulos 1 a 4)
  • Não há avaliação contínua: não há testes intercalares nem nota mínima por prova
  • Classificação mínima de aprovação: 9.50 valores

A Economia como Ciência

Problema Económico

Decidir o que produzir, como e para quem, utilizando recursos escassos, passíveis de utilizações alternativas, num contexto de não saciedade (necessidades ilimitadas).


Definição de Economia

Segundo Lionel Robbins (1935):

Ciência que estuda o comportamento humano como uma relação entre fins e meios escassos que têm usos alternativos.


Divisão da Economia

Microeconomia

Estuda o comportamento e interação de consumidores e produtores, enquanto indivíduos isolados, que se encontram num mercado.

Macroeconomia

Estuda o desempenho da economia à escala nacional. Analisa variáveis agregadas como o rendimento, o emprego e o investimento. Estuda fenómenos como a inflação e os ciclos económicos.


Análise Económica

Dois tipos de análise:

Economia Positiva
Análise científica, objetiva, com conclusões demonstráveis e verificáveis.

Economia Normativa
Análise subjetiva, influenciada por juízos de valor, em função de preceitos políticos, éticos ou morais.


Não confundir!

  • Economia (com E maiúsculo) → diz respeito à ciência
  • economia (com e minúsculo) → agregado de “agentes económicos” (indivíduos que tomam decisões) que interagem em determinado espaço

A Escassez

O que seria o mundo sem escassez?

Não haveria necessidade de escolher entre utilizações alternativas para um recurso, porque ele existiria em quantidades ilimitadas…

A escassez obriga a que se façam escolhas, levando a um trade-off: para se ter uma utilização de um recurso, prescinde-se (total ou parcialmente) de outra utilização alternativa.


Custos Económicos

O custo económico de utilização de um recurso é o custo de oportunidade.

Custo de Oportunidade

Valor gerado por um recurso na sua melhor utilização alternativa.

O Custo de Oportunidade representa, portanto, o valor que os agentes económicos atribuem à melhor alternativa de que prescindem quando efetuam uma escolha.


Questão

Qual é o custo de oportunidade da utilização de um recurso ilimitado?

. . .

(Resposta: Zero, porque não há alternativas escassas)


Exemplo Prático

O João tem um Prédio Rural que pode vender por €1,000 no mercado, mas pagaria €100 de imposto sobre mais-valias de imóveis.

Se plantar eucaliptos, pode ter um rendimento de €1,800 por ano, mas terá de investir €1,100 no cultivo e tratamento das árvores.

Se optar por plantar eucaliptos, qual o custo de oportunidade da decisão?


Solução: Custo de Oportunidade de Plantar

O custo de oportunidade de plantar eucaliptos será o valor que o João conseguiria ter se optasse pela alternativa (vender):

\[ \underbrace{€1{,}000 - €100}_{\text{Excedente na alternativa}} + \overbrace{€1{,}100}^{\text{Despesa que não teria}} = €2{,}000 \]


Observação

Qual a relação entre custo de oportunidade de uma escolha e a despesa com a sua aquisição?

  • A despesa com a aquisição pode ser considerada um custo contabilístico (no caso da plantação, €1,100)
  • O custo de oportunidade é algo mais do que isso: €1,100 + excedente da melhor alternativa

E se o João optar por vender?

O custo de oportunidade da venda será o valor que o João conseguiria ter se optasse pela alternativa (plantar eucaliptos):

\[ \underbrace{€1{,}800 - €1{,}100}_{\text{Excedente na alternativa}} + \overbrace{€100}^{\text{Despesa que não teria}} = €800 \]


Qual a Decisão Ótima?

Racionalidade!

A decisão racional será aquela opção para a qual o custo de oportunidade é inferior ao benefício bruto nessa opção.


No exemplo:

Vender:

  • Custo de oportunidade = €800
  • Benefício bruto = €1,000

Plantar:

  • Custo de oportunidade = €2,000
  • Benefício bruto = €1,800

Conclusão

A decisão racional é vender o terreno, pois é aquela para a qual o custo de oportunidade é inferior ao benefício bruto:

\[ \underbrace{€1{,}800 - €1{,}100 - €100}_{\text{CO da venda}} < \underbrace{€1{,}000}_{\text{Benefício bruto da venda}} \]


Formas Equivalentes de Racionalidade

Uma decisão é racional se:

  1. O seu custo de oportunidade for inferior ao seu benefício bruto
  2. O seu excedente for o maior
  3. O seu Bmg (benefício marginal) for superior ao Cmg (custo marginal) → análise custo-benefício

Resumo · Introdução e Conceitos Fundamentais

  • Conceitos fundamentais: Economia, Microeconomia vs Macroeconomia
  • Escassez e escolhas económicas
  • Custo de oportunidade: valor da melhor alternativa abandonada
  • Racionalidade: escolher quando CO < Benefício Bruto
  • Três formas equivalentes de verificar racionalidade

A seguir: Análise Custo-Benefício, Bmg e Cmg

Racionalidade e Análise Custo-Benefício

Análise Custo-Benefício

A comparação entre custos marginais e benefícios marginais é particularmente útil quando é necessário escolher a quantidade de um recurso que está a ser utilizada ou a quantidade de um bem que se está a produzir.


Princípio Fundamental

Valerá a pena aumentar a quantidade enquanto o benefício marginal (benefício adicional por mais uma unidade) for superior ao custo marginal (custo adicional por essa unidade).


Exemplo: Produtor de Pêra Rocha

Um produtor de Pêra Rocha do Oeste precisa decidir que quantidade de pêra deve colher nos seus pomares.

  • Se colher mais, consegue vender mais
  • Mas também tem mais custos

. . .

As receitas e os custos são de acordo com o quadro seguinte:


Dados do Problema

Quantidade (10s caixas) Receitas (benefício) Benefício marginal Custos Custo marginal
10 €100 €80
11 €109 €85
12 €117 €92
13 €124 €100
14 €130 €110

Cálculo do Benefício Marginal

Quantidade (10s caixas) Receitas (benefício) Benefício marginal Custos Custo marginal
10 €100 - €80
11 €109 €9 €85
12 €117 €8 €92
13 €124 €7 €100
14 €130 €6 €110

Cálculo do Custo Marginal

Quantidade (10s caixas) Receitas (benefício) Benefício marginal Custos Custo marginal
10 €100 - €80 -
11 €109 €9 €85 €5
12 €117 €8 €92 €7
13 €124 €7 €100 €8
14 €130 €6 €110 €10

\[Bmg = \frac{\Delta B}{\Delta Q}, \quad Cmg = \frac{\Delta C}{\Delta Q}\]


Tabela Completa

Quantidade (10s caixas) Receitas Bmg Custos Cmg
10 €100 - €80 -
11 €109 €9 €85 €5
12 €117 €8 €92 €7
13 €124 €7 €100 €8
14 €130 €6 €110 €10
16 €140 €5 €132 €11

Qual a quantidade ótima de caixas a produzir?


Cálculo do Lucro

Quantidade Receitas Bmg Custos Cmg Lucro
10 €100 - €80 - €20
11 €109 €9 €85 €5 €24
12* €117 €8 €92 €7 €25
13 €124 €7 €100 €8 €24
14 €130 €6 €110 €10 €20
16 €140 €5 €132 €11 €12

Quantidade ótima: 12 caixas (onde Bmg ≈ Cmg)


Otimização de uma função

Se a uma função \(f\) for diferenciàvel no conjunto aberto \(S\), então:

  1. Se para \(x^*\in S\), \(f'(x^*)=0\), e \(f''(x^*)<0\), então \(x^*\) é um máximo local.
  2. Se para \(x^*\in S\), \(f'(x^*)=0\), e \(f''(x^*)>0\), então \(x^*\) é um minimo local.

. . .

À condição na primeira derivada chamamos Condição de Primeiro Ordem (CPO), e à condição na segunda derivada chamamos Condição de Segundo Ordem (CSO).

Se a função tiver segunda derivada monotónica, então a CSO não é necessária.


Condição Matemática de Máximo

Para maximizar o lucro (Benefício - Custo):

\[ \max\ (B - C) \]

Condição de primeira ordem:

\[ \frac{d(B-C)}{dQ} = 0 \Rightarrow B' - C' = 0 \Rightarrow B' = C' \]

Conclusão:

\[ Bmg = Cmg \]


Conclusões sobre Análise Marginal

  1. Análise marginal é o cálculo da variação de uma variável por unidade adicional de outra

  2. Análise marginal corresponde, portanto, a uma taxa de variação média

  3. Uma taxa de variação média é uma derivada

  4. O critério custo-benefício corresponde à condição de primeira ordem de máximo


Racionalidade

Por vezes, os agentes económicos não tomam decisões racionais, porque a racionalidade é limitada, já que:

  1. A realidade é muito complexa
  2. A capacidade cognitiva dos indivíduos é limitada
  3. A informação é frequentemente incompleta

Pressuposto do Curso

Mas admitiremos que os indivíduos são racionais e que reagem a incentivos.

Escolhas racionais são escolhas eficientes.


Eficiência

Eficiência (no sentido de Pareto) significa não poder melhorar a situação de um agente económico sem piorar a situação de outro…

Em geral, todas as escolhas eficientes têm subjacente um trade-off: uma situação de escolha em que para ter mais de uma opção é preciso prescindir de outra.

Na produção, eficiência é incompatível com desaproveitamento de recursos.


Bem-Estar Social

Refere-se à adição de todos os benefícios que decorrem das escolhas para todos os agentes económicos. Note que estes benefícios não fazem referência ao benefício bruto, mas sim ao excedente.


Resumo · Racionalidade e Análise Custo-Benefício

  • Análise custo-benefício: comparar Bmg e Cmg
  • Regra de otimização: aumentar quantidade enquanto Bmg > Cmg
  • Condição de máximo: Bmg = Cmg (derivada = 0)
  • Racionalidade limitada: complexidade, cognição, informação
  • Eficiência de Pareto: não melhorar um sem piorar outro

A seguir: Fronteira das Possibilidades de Produção (FPP), Custo Relativo, Vantagens do Comércio

Fronteira das Possibilidades de Produção

A Fronteira das Possibilidades de Produção

Descreve a produção máxima que é possível obter, para um conjunto de bens, dados os recursos disponíveis numa economia.


Pressupostos do Modelo FPP

No modelo:

  • Consideram-se dois bens
  • Admite-se que a tecnologia e os recursos são fixos
  • Ilustra-se o conceito de eficiência de Pareto
  • Utiliza-se o conceito de custo de oportunidade

Representação Gráfica da FPP

  • \(M\): Ineficiente (recursos desperdiçados)
  • \(N\): Inatingível (fora das possibilidades)

Interpretação dos Pontos

  • Os pontos A e B representam produção com especialização em cada uma das atividades

  • Pontos sobre a FPP são pontos de produção eficientes no sentido de Pareto

  • A partir de um ponto da FPP, caso se queira aumentar a produção de um bem, é preciso prescindir da produção de outro


Custo Relativo

A partir de um ponto da FPP, a razão \(\left|\frac{\Delta Y}{\Delta X}\right|\) coincide com o declive da FPP linear (sem sinal) e designa-se custo relativo do bem \(X\).

Representa um custo de oportunidade!


Visualização do Custo Relativo

Produzir mais \(\Delta X\) custa \(\Delta Y\), ou, cada unidade de \(X\) custa \(\frac{\Delta Y}{\Delta X}\) de unidades de \(Y\).

Interpretação Matemática

  • \(\frac{\Delta Y}{\Delta X}\) é a taxa de variação média: qual a variação em \(Y\) por unidade de variação em \(X\)

  • Quando \(\Delta X \to 0\), obtemos a derivada: \(\frac{dY}{dX}\)

  • A derivada mede o declive da tangente à FPP num ponto

Conclusão: O custo relativo num ponto é dado pela derivada da FPP (em valor absoluto)

FPP e FPC

Um agente económico, sempre pode consumir o que pode produzir, ou seja todos os pontos sobre (e abaixo) da FPP representam um espaço de consumo. Ainda mais, a FPP representa também a Fronteira de Possibilidades de Consumo (FPC). Isto é verdade sempre que o agente económico não tenha possibilidade de comerciar com outros agentes.


Vantagens do Comércio

Há ganhos que decorrem de os indivíduos se especializarem nas tarefas que fazem melhor e recorrerem ao comércio para trocarem entre si o produto das suas atividades.

Usemos a FPP para tirar essa conclusão!


Exemplo: Pintor vs Cozinheiro

Dois vizinhos: um sabe pintar e o outro sabe cozinhar

:artist:

:cook:


Custos Relativos e Vantagem Comparativa

Custos de Oportunidade Pintor :artist: Cozinheiro :cook:
Um bolo :cupcake: \(\frac{3}{4}\) \(>\) \(\frac{1}{3}\)
Um quadro :framed_picture: \(\frac{4}{3}\) \(<\) \(3\)

Interpretação

  • O cozinheiro tem vantagem comparativa na produção de bolos (menor custo de oportunidade: \(\frac{1}{3} < \frac{3}{4}\))

  • O pintor tem vantagem comparativa na produção de quadros (menor custo de oportunidade: \(\frac{4}{3} < 3\))


Quando Vale a Pena Especializar?

Pintor:
Valerá a pena especializar-se na produção de quadros se puder trocar cada um por mais do que \(\frac{4}{3}\) bolos (o seu custo de oportunidade)

Cozinheiro:
Valerá a pena especializar-se na produção de bolos se puder trocar cada um por mais do que \(\frac{1}{3}\) de quadro (ou seja, um quadro em troca de no máximo 3 bolos)


Termos de Troca

Estando o pintor disposto a receber \(\frac{4}{3}\) bolos por cada quadro que venda e estando o cozinheiro disposto a pagar \(3\) bolos por cada quadro que compre, há margem para transações mutuamente vantajosas!

Pode haver trocas se um quadro se trocar por um qualquer número de bolos entre \(\frac{4}{3}\) e \(3\).


Exemplo de Comércio

Admitamos que há especialização e que:

  • O pintor vende 5 quadros ao cozinheiro
  • O pintor compra 10 bolos em troca

Termos de troca: 1 quadro = 2 bolos
(valor entre \(\frac{4}{3}\) e \(3\))


Resultado: Ganhos do Comércio

Autarcia Com Comércio Ganhos
Produção Consumo Produção Consumo
:artist: :framed_picture: 9 9 15 10 +1
:cupcake: 8 8 0 10 +2
:cook: :framed_picture: 4 4 0 5 +1
:cupcake: 3 3 15 5 +2

Ambos ganham com o comércio!


Visualização: Consumo Após Comércio


Possibilidades de Consumo com Comércio

Possibilidades de consumo se termos de troca forem 1 quadro = 2 bolos:

A linha azul mostra as novas possibilidades de consumo!


Vantagem Comparativa: Conclusões

  • No exemplo, o pintor tem vantagem comparativa na produção de quadros porque o seu custo de oportunidade é menor do que o do cozinheiro

  • É da vantagem comparativa que dependem os ganhos do comércio e os padrões de especialização


Princípio Fundamental

O comércio (neste caso, troca direta) tem a vantagem de permitir que cada um dos agentes económicos se especialize na tarefa que faz relativamente melhor, para que depois eles se encontrem no mercado para fazerem transações.

Após o comércio, é possível os indivíduos estarem num ponto de consumo em que obtêm mais quantidade de ambos os bens, do que numa situação de autarcia, usando os mesmos recursos.


Aplicações do Princípio

  • Todos temos uma vantagem comparativa nalguma atividade
  • O mesmo se aplica a empresas
  • O mesmo se aplica a países

É neste princípio que se baseia o comércio internacional!


Resumo · Fronteira das Possibilidades de Produção

  • Modelos económicos: simplificação da realidade, abordagem cæteris paribus
  • FPP: produção máxima dados recursos e tecnologia fixos
  • Custo relativo: \(\left|\frac{\Delta Y}{\Delta X}\right|\) = custo de oportunidade
  • Vantagem comparativa: especializar na atividade com menor CO
  • Ganhos do comércio: especialização + troca aumenta consumo
  • Comércio internacional: baseado em vantagem comparativa

Para Refletir

O que aconteceria se a FPP, em vez de linear, fosse côncava? O que significa isto? Porque poderia isto acontecer?


Para praticar: o Caderno de Exercícios 1 tem exercícios sobre FPP, custo de oportunidade e vantagem comparativa