Microeconomia

A Teoria do Produtor e o Equilíbrio Competitivo

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Produção no Curto e no Longo Prazo

Teoria do Produtor

Objetivo: Compreender como as empresas transformam inputs em output, a diferença entre curto e longo prazo, e as propriedades da função de produção.


Modelo de Produção

Uma unidade produtiva contrata inputs no mercado de fatores e, usando uma tecnologia, transforma-os em output.


Escolhas da Empresa

São escolhas da empresa:

  • Quantidade de cada input a contratar, em função dos respetivos preços de mercado.
  • Quantidade de output a produzir, em função das condições de mercado e da tecnologia disponível.

Linguagem

\[F(K,L)=Q \quad \text{(Função de Produção)}\]

Relação entre quantidade de inputs e quantidade de output que a partir deles se obtém, dada uma tecnologia.

\[CT = C(Q) \quad \text{(Função de Custos)}\]

Relação entre custos de contratação de inputs e quantidade de output produzido, dada uma tecnologia.


Função de Produção

  • Uma função de produção mostra o produto máximo que se pode obter através de combinações alternativas de fatores produtivos, dada uma certa tecnologia.

  • Pressupõe-se eficiência na utilização de recursos.

  • Notação: \(F(K,L) = Q\), em que \(K\) é o capital e \(L\) é o trabalho.


Curto Prazo vs. Longo Prazo · Produção CP/LP

  • Uma empresa tem de decidir: quantidade a produzir, localização, equipamentos a instalar, pessoal a contratar…
  • Estas decisões são tomadas em períodos de tempo diferentes: é mais rápido contratar trabalhadores do que adquirir instalações.

Curto Prazo (conceito)

O Curto Prazo é um período de tempo suficientemente curto para que a empresa não consiga modificar a quantidade contratada de, pelo menos, um fator produtivo (fator fixo).

Normalmente, considera-se que o Capital (\(K\)) está fixo a curto prazo.


Longo Prazo (conceito)

O Longo Prazo é um período de tempo suficientemente longo para que a quantidade contratada de todos os fatores produtivos possa ser alterada.

  • É neste contexto que se enquadram as planificações de produção para o futuro: área de produção, linhas de produto, maquinaria/tecnologia…

“Quanto Tempo tem o Tempo?”

  • Longo Prazo e Curto Prazo são apenas conceitos.

  • A duração necessária depende do setor de atividade.

Um mês pode ser suficiente para substituir toda a maquinaria de uma fábrica têxtil, mas não para o fazer numa fábrica de microcomponentes eletrónicos. O “longo prazo” pode demorar mais nalguns setores do que noutros.


Fatores Fixos e Variáveis

Curto Prazo Longo Prazo
Capital (\(K\)) Fixo (\(\bar{K}\)) Variável
Trabalho (\(L\)) Variável Variável

Nos modelos seguintes, considera-se \(L\) variável e \(K\) fixo a curto prazo: \[F(\bar{K}, L) = f(L) \quad \text{(curva de produto total)}\]


Produto Marginal do Trabalho (MPL)

Traduz a forma como a produção se altera (\(\Delta Q\)) quando o input variável se altera (\(\Delta L\)):

\[Pmg = MPL = \frac{\Delta Q}{\Delta L}\]

É a variação do produto total quando se adiciona uma unidade adicional de trabalho, cæteris paribus (mantendo \(K\) constante).


Produto Médio do Trabalho (APL)

É a quantidade produzida, em média, por cada unidade de trabalho contratada:

\[PMe = APL = \frac{Q}{L}\]

Uma “unidade de trabalho” pode ser uma pessoa, grupos de pessoas, ou uma unidade de tempo (horas, dias…).


Exemplo Numérico: APL e MPL

\(L\) \(F(K,L)\) \(APL\) \(MPL\)
0 0 — —
1 4 4.00 4
2 14 7.00 10
3 27 9.00 13
4 43 10.75 16
5 58 11.60 15
6 72 12.00 14
7 81 11.57 9
8 86 10.75 5
9 86 9.56 0
10 78 7.80 \(-8\)
  • MPL máximo: \(L=4\)
  • Quando \(MPL > APL\): APL está a crescer; quando \(MPL < APL\): APL está a diminuir. APL máximo \(\to\) ótimo técnico.

Curva de Produto Total


APL e MPL — Curva Geral


As 3 Etapas do Processo Produtivo

Etapa Intervalo Característica
I \([0,\, Q_1]\) \(MPL > APL\); APL crescente
II \([Q_1,\, Q_{max}]\) \(MPL < APL\); APL decrescente; \(MPL \geq 0\)
III \(Q > Q_{max}\) \(MPL < 0\); produção decresce

A Zona Económica de Exploração é a Etapa II — é aqui que se situam as escolhas ótimas de produção.


Exemplos de Funções de Produção

Funções de produção podem ter formas analíticas muito diversas:

  • \(Q = 2KL\) → a curto prazo (\(K=2\)): \(Q = 4L\)
  • \(Q = K^{0.25}L^{0.5}\) → a curto prazo (\(K=16\)): \(Q = 2L^{0.5}\)
  • \(Q = K^{0.5}L^{0.5}\) → a curto prazo (\(K=4\)): \(Q = 2L^{0.5}\)
  • \(Q = -K^3L^3 + 30K^4L^2 + 10K^5L\) → a curto prazo (\(K=1\)): \(Q = -L^3 + 30L^2 + 10L\)

Cada expressão representa um diferente modelo de tecnologia.


Produção a Longo Prazo: Efeito de \(\uparrow K\)

Um aumento de \(K\) expande a curva de produto total — efeito análogo ao de um progresso tecnológico.


Exercícios — Escolha Múltipla (1) · Produção CP/LP

1. A empresa A tem a função \(Q = K^{0.5}L^{0.5}\) e a empresa B tem \(Q = KL\). A curto prazo (\(K=4\)):

  1. A empresa A tem MPL crescente e a empresa B tem MPL constante.
  2. A empresa A tem MPL decrescente e a empresa B tem MPL crescente.
  3. A empresa A tem MPL decrescente e a empresa B tem MPL constante.
  4. Ambas têm MPL decrescente.

Solução: A (\(K=4\)): \(Q=2L^{0.5}\), \(MPL = L^{-0.5}\) → decresce com \(L\). B (\(K=4\)): \(Q=4L\), \(MPL = 4\) → constante. Resposta: c).


Exercícios — Escolha Múltipla (2) · Produção CP/LP

2. Qual das seguintes afirmações sobre a Zona Económica de Exploração é correta?

  1. Corresponde à Etapa I, onde APL está a crescer.
  2. Corresponde à Etapa II, onde \(MPL \geq 0\) e APL está a decrescer.
  3. Corresponde à Etapa III, onde o output é máximo.
  4. É onde o MPL é máximo.

Solução: b), por definição.


Exercício de Desenvolvimento · Produção CP/LP

Enunciado: Considere a função de produção \(Q = -KL^3 + 30K^2L^2 + 10L\), com \(K=1\) fixo.

  1. Calcule \(MPL\) e \(APL\). A partir de que valor de \(L\) se verificam rendimentos marginais decrescentes?

  2. Delimite as três etapas do processo produtivo e identifique a Zona Económica de Exploração.


Solução — Desenvolvimento (a) · Produção CP/LP

\[MPL = \frac{dQ}{dL} = -3L^2 + 60L + 10\]

\[APL = \frac{Q}{L} = -L^2 + 30L + 10\]

Rendimentos marginais decrescentes quando \(\frac{d(MPL)}{dL} < 0\): \[\frac{d(MPL)}{dL} = -6L + 60 = 0 \Rightarrow L = 10\]

Para \(L > 10\): rendimentos marginais decrescentes.


Solução — Desenvolvimento (b) · Produção CP/LP

Etapa I → II: \(MPL = APL\)

\[-3L^2 + 60L + 10 = -L^2 + 30L + 10\] \[-2L^2 + 30L = 0 \Rightarrow L(-2L + 30) = 0 \Rightarrow L = 15\]

Etapa II → III: \(MPL = 0\)

\[-3L^2 + 60L + 10 = 0 \Rightarrow L \approx 20.16\]

Etapa Intervalo em \(L\)
I \([0,\; 15[\)
II (Zona Econ.) \([15,\; 20.16]\)
III \(]20.16,\; +\infty[\)

Etapas da Contratação de Fatores

Revisão: Etapas do Processo Produtivo

Objetivo: Identificar as três etapas do processo produtivo, compreender a Zona Económica de Exploração, e derivar a Lei da Contratação como condição ótima do produtor.


Recapitulação: APL e MPL

A curto prazo, com \(K = \bar{K}\) fixo e \(L\) variável:

\[MPL = \frac{\Delta Q}{\Delta L} \qquad APL = \frac{Q}{L}\]

Relação fundamental entre as duas medidas:

  • Quando \(MPL > APL\) → \(APL\) está a crescer
  • Quando \(MPL = APL\) → \(APL\) está no seu máximo (ótimo técnico)
  • Quando \(MPL < APL\) → \(APL\) está a decrescer

As 3 Etapas — Diagrama Geral


Etapa I — Rendimentos Marginais Crescentes

Intervalo: \(L \in [0,\, L_1[\) onde \(L_1\) é o ponto em que \(MPL = APL\)

  • \(MPL\) está a crescer (até ao ponto de inflexão) e depois decresce, mas mantém-se acima de \(APL\)
  • \(APL\) está sempre a crescer
  • A empresa ainda não está a aproveitar ao máximo a combinação de fatores

A empresa não se deve fixar na Etapa I — está a produzir abaixo do ótimo técnico, onde a produtividade média ainda pode aumentar.


Etapa II — Zona Económica de Exploração

Intervalo: \(L \in [L_1,\, L_{max}]\) onde \(MPL = APL\) até \(MPL = 0\)

  • \(APL\) está a decrescer (mas \(APL > 0\))
  • \(MPL \geq 0\): cada trabalhador adicional ainda contribui positivamente para o output
  • É aqui que se situam todas as escolhas ótimas de produção

A Zona Económica de Exploração coincide com a Etapa II: entre o ótimo técnico (\(Q_1\), máximo de \(APL\)) e o máximo de produção (\(Q_{max}\), \(MPL = 0\)).


Etapa III — Rendimentos Marginais Negativos

Intervalo: \(L > L_{max}\) onde \(MPL = 0\)

  • \(MPL < 0\): cada trabalhador adicional reduz o output total
  • O produto total está a diminuir

Nenhuma empresa racional opera na Etapa III — estaria a pagar trabalhadores para reduzir a sua produção.


Resumo das 3 Etapas

Etapa Intervalo (L) MPL APL Output
I \([0,\; L_1[\) \(> APL\) crescente crescente
II (ZEE) \([L_1,\; L_{max}]\) \(\geq 0\), \(< APL\) decrescente crescente
III \(]L_{max},\; +\infty[\) \(< 0\) decrescente decrescente

ZEE = Zona Económica de Exploração → Etapa II: onde o produtor racional opera.


Exemplo Numérico — Tabela Completa

\(L\) \(Q=F(K,L)\) \(APL\) \(MPL\) Etapa
0 0 — —
1 4 4.00 4 I
2 14 7.00 10 I
3 27 9.00 13 I
4 43 10.75 16 I (máx MPL)
5 58 11.60 15 I
6 72 12.00 14 II (ótimo técnico: APL máx)
7 81 11.57 9 II
8 86 10.75 5 II
9 86 9.56 0 II→III (\(Q_{max}\))
10 78 7.80 \(-8\) III

Nota: a tabela usa valores arredondados para ilustração; os pontos de fronteira exatos são calculados analiticamente.


Objetivo da Empresa: Maximizar o Lucro

A empresa quer maximizar:

\[\Pi = \underbrace{P \times Q}_{\text{Receita Total}} - \underbrace{W \times L}_{\text{Custo Variável}} - \underbrace{r \times \bar{K}}_{\text{Custo Fixo}}\]

A curto prazo, \(K\) é fixo. A variável de controlo é \(L\). Maximizar \(\Pi\) em ordem a \(L\):

\[\frac{\partial \Pi}{\partial L} = 0\]


Derivação da Condição Ótima

\[\frac{\partial \Pi}{\partial L} = P \cdot \frac{\partial Q}{\partial L} - W = 0\]

Ou seja: \[P \cdot MPL = W\]

Lei da Contratação: A empresa deve contratar trabalho até ao ponto em que o valor do produto marginal do trabalho (\(P \times MPL\)) iguala o salário (\(W\)).


Lei da Contratação — Intuição

\[\underbrace{P \times MPL}_{\text{Benefício Marginal de contratar L}} = \underbrace{W}_{\text{Custo Marginal de contratar L}}\]

  • Se \(P \cdot MPL > W\): vale a pena contratar mais um trabalhador (receita adicional supera o custo)
  • Se \(P \cdot MPL < W\): o último trabalhador custa mais do que produz — deve-se reduzir \(L\)
  • Se \(P \cdot MPL = W\): condição ótima ✓

É a aplicação direta do princípio Cmg = Bmg ao mercado de fatores!


Exemplo Resolvido · Contratação de Fatores

Dados: \(Q = K^{0.5}L^{0.5}\), \(\bar{K} = 100\), \(P = 10\), \(W = 20\)

A curto prazo: \(Q = 10L^{0.5}\)

\(MPL = \frac{dQ}{dL} = 5 L^{-0.5}\)

Condição ótima: \(P \cdot MPL = W\)

\[10 \times 5L^{-0.5} = 20\] \[50 L^{-0.5} = 20 \implies L^{0.5} = \frac{50}{20} = 2.5 \implies L^* = 6.25\]

Output ótimo: \(Q^* = 10 \times \sqrt{6.25} = 10 \times 2.5 = 25\)


A Relação Produtividade–Salário

Da condição ótima \(P \cdot MPL = W\), podemos escrever:

\[MPL = \frac{W}{P}\]

Esta expressão diz-nos que o produto marginal do trabalho na escolha ótima é igual ao salário real \(W/P\).

Trabalhadores mais produtivos (maior \(MPL\)) justificam salários mais elevados — ou, a preços mais altos, justifica-se contratar mais trabalho. A Lei da Contratação liga diretamente produtividade e remuneração.


Verificação Gráfica

A curva \(P \cdot MPL\) é decrescente (por causa dos rendimentos marginais decrescentes). A empresa contrata \(L^*\) onde essa curva cruza o salário \(W\).


Exercícios — Escolha Múltipla (1) · Contratação de Fatores

1. Uma empresa tem \(Q = 4L^{0.5}\), \(P = 5\) e \(W = 10\). Qual a quantidade ótima de trabalho a contratar?

  1. \(L^* = 1\)
  2. \(L^* = 4\)
  3. \(L^* = 9\)
  4. \(L^* = 16\)

Solução: A \(MPL = 2L^{-0.5}\). Lei da contratação: \(P \cdot MPL = W \Rightarrow 5 \times 2L^{-0.5} = 10 \Rightarrow L^{-0.5} = 1 \Rightarrow L^* = 1\).


Exercícios — Escolha Múltipla (2) · Contratação de Fatores

2. A empresa está a operar com \(P \cdot MPL > W\). O que deve fazer para maximizar o lucro?

  1. Reduzir o output — está a produzir demasiado.
  2. Manter a produção — já está no ótimo.
  3. Contratar mais trabalho — o benefício marginal supera o custo marginal.
  4. Aumentar o preço de venda.

Solução: C Se \(P \cdot MPL > W\), cada trabalhador adicional gera mais receita do que custa. A empresa deve contratar mais até \(P \cdot MPL = W\).


Exercício de Desenvolvimento · Contratação de Fatores

Enunciado: A empresa ALFA tem a função de produção \(Q = -KL^3 + 12L^2 + 60LK^3\), com \(K=1\) fixo. O preço de venda é \(P = 2\) u.m. e o salário unitário é \(W = 168\) u.m.

  1. Calcule \(MPL\) e \(APL\). Delimite as três etapas do processo produtivo.

  2. Aplique a Lei da Contratação para encontrar \(L^*\) e \(Q^*\).

  3. Verifique que \(L^*\) se encontra na Zona Económica de Exploração.


Solução — Desenvolvimento (a) · Contratação de Fatores

\[MPL = -3L^2 + 24L + 60\] \[APL = -L^2 + 12L + 60\]

Etapa I → II (\(MPL = APL\)): \[-3L^2 + 24L + 60 = -L^2 + 12L + 60 \implies -2L^2 + 12L = 0 \implies L_1 = 6\]

Etapa II → III (\(MPL = 0\)): \[-3L^2 + 24L + 60 = 0 \implies (L-10)(L+2) = 0 \implies L_{max} = 10\]

Etapa Intervalo
I \([0,\; 6[\)
II (ZEE) \([6,\; 10]\)
III \(]10,\; +\infty[\)

Solução — Desenvolvimento (b) e (c) · Contratação de Fatores

Lei da Contratação: \(P \cdot MPL = W\)

\[2 \times (-3L^2 + 24L + 60) = 168\] \[-3L^2 + 24L + 60 = 84\] \[-3L^2 + 24L - 24 = 0 \implies L^2 - 8L + 8 = 0\] \[L = \frac{8 \pm \sqrt{64 - 32}}{2} = \frac{8 \pm \sqrt{32}}{2} = 4 \pm 2\sqrt{2}\]

\(L_1 = 4 - 2\sqrt{2} \approx 1.17\) (Etapa I — não é ótimo)

\(L_2 = 4 + 2\sqrt{2} \approx 6.83\) (Etapa II ✓)

\(L^* \approx 6.83\); \(Q^* = -(6.83)^3 + 12(6.83)^2 + 60(6.83) \approx 650.8\) u.

\(L^* \approx 6.83 \in [6, 10]\) → está na ZEE ✓

A Função de Custos

Função de Custos

Objetivo: Derivar e interpretar as componentes da função de custos a curto prazo — fixo, variável, médio e marginal — e compreender as suas relações geométricas e analíticas.


Do Processo Produtivo aos Custos

O objetivo da empresa é maximizar o lucro:

\[\Pi = \text{Receitas Totais} - \text{Custos Totais}\]

Para isso, é necessário conhecer a função de custos: como variam os custos com o nível de produção \(Q\).

A curto prazo, com \(K\) fixo e \(L\) variável, os custos dividem-se em duas componentes muito distintas.


Custo Fixo e Custo Variável

\[CT = C(Q) = CF + CV(Q)\]

  • Custo Fixo (\(CF\)): não depende da quantidade produzida — é o custo dos fatores fixos (\(K\)). Existe mesmo que \(Q = 0\).
  • Custo Variável (\(CV\)): depende da quantidade produzida — é o custo do trabalho contratado (\(W \times L\)). Aumenta com \(Q\).

\(CV(0) = 0\) — se não se produz nada, não se contrata trabalho. Mas \(CF > 0\) mesmo com \(Q = 0\).


Exemplo: Da Função de Produção à Função de Custos

Dados: custo de \(K\) instalado \(= 60\); salário por unidade de \(L\) \(= 250\)

\(L\) \(Q\) \(CF\) \(CV\) \(CT\)
0 0 60 0 60
1 20 60 250 310
2 50 60 500 560
3 85 60 750 810
4 114 60 1,000 1,060
5 140 60 1,250 1,310
6 159 60 1,500 1,560
7 169 60 1,750 1,810
8 164 60 2,000 2,060

Note que a curva de \(CT\) é paralela à de \(CV\) — distam sempre \(CF = 60\).


Gráfico: CT, CV e CF


Custo Marginal

É a variação do custo total quando se produz uma unidade adicional de output:

\[Cmg = \frac{\Delta CT}{\Delta Q} = \frac{dCT}{dQ}\]

Como \(CF\) é constante, \(\Delta CF = 0\), portanto:

\[Cmg = \frac{\Delta CV}{\Delta Q} = \frac{dCV}{dQ}\]

O custo marginal é independente do custo fixo — pode calcular-se a partir de \(CT\) ou de \(CV\) com o mesmo resultado.


Custo Marginal e MPL

Existe uma relação inversa entre \(Cmg\) e \(MPL\). Se o salário por unidade de \(L\) é \(W\):

\[Cmg = \frac{W}{MPL}\]

  • Na Etapa I (MPL crescente) → \(Cmg\) é decrescente
  • No ótimo técnico (APL máximo) → \(Cmg = CVM\) (mínimo de \(CVM\))
  • Na Etapa II (MPL decrescente, \(MPL > 0\)) → \(Cmg\) é crescente

A Lei dos Rendimentos Marginais Decrescentes implica que o \(Cmg\) é crescente na Zona Económica de Exploração — fundamento da Lei da Oferta.


Custos Médios

Dividem o custo por unidade produzida:

  • Custo Fixo Médio: \(CFM = \dfrac{CF}{Q}\) — sempre decrescente (o custo fixo dilui-se por mais unidades)

  • Custo Variável Médio: \(CVM = \dfrac{CV}{Q}\) — forma em \(U\); mínimo onde \(Cmg = CVM\)

  • Custo Total Médio: \(CTM = \dfrac{CT}{Q} = CFM + CVM\) — forma em \(U\); mínimo onde \(Cmg = CTM\)

\[CTM = CFM + CVM \implies CTM > CVM \text{ sempre}\]


Tabela com Todos os Custos

\(L\) \(Q\) \(CT\) \(Cmg\) \(CVM\) \(CTM\) Etapa
0 0 60 — — —
1 20 310 12.50 12.50 15.50 I
2 50 560 8.33 10.00 11.20 I
3 85 810 7.14 8.82 9.53 I
4 114 1,060 8.62 8.77 9.30 I
5 140 1,310 9.62 8.93 9.36 II
6 159 1,560 13.16 9.43 9.81 II
7 169 1,810 25.00 10.36 10.71 II
  • \(Cmg\) decrescente (Etapa I)
  • \(CVM\) próximo do mínimo (onde \(Cmg \approx CVM\))
  • \(CTM\) está sempre acima de \(CVM\) (diferença = \(CFM\))

Geometria dos Custos Médios e Marginal


Propriedades Fundamentais

1. \(Cmg\) interseta \(CVM\) no mínimo de \(CVM\)

  • Se \(Cmg < CVM\): o custo da última unidade é inferior à média → \(CVM\) desce
  • Se \(Cmg > CVM\): o custo da última unidade é superior à média → \(CVM\) sobe
  • Se \(Cmg = CVM\): estamos no mínimo de \(CVM\)

2. \(Cmg\) interseta \(CTM\) no mínimo de \(CTM\) (pelo mesmo raciocínio)

3. \(CTM > CVM\) sempre (a diferença é o \(CFM > 0\))

4. \(CFM\) é sempre decrescente e tende para 0 → \(CTM\) converge para \(CVM\) quando \(Q \to \infty\)


Exemplo Analítico Completo

Dada \(CT = Q^3 - 6Q^2 + 15Q + 10\):

\[CF = 10 \quad \text{(termo constante)}\] \[CV = Q^3 - 6Q^2 + 15Q\]

\[Cmg = \frac{dCT}{dQ} = 3Q^2 - 12Q + 15\]

\[CVM = \frac{CV}{Q} = Q^2 - 6Q + 15\] \[CTM = \frac{CT}{Q} = Q^2 - 6Q + 15 + \frac{10}{Q}\]


Mínimo de CVM e CTM

Para \(CT = Q^3 - 6Q^2 + 15Q + 10\):

Mínimo de \(CVM\): onde \(Cmg = CVM\):

\[3Q^2 - 12Q + 15 = Q^2 - 6Q + 15\] \[2Q^2 - 6Q = 0 \implies Q(2Q - 6) = 0 \implies Q_{CVM_{min}} = 3\]

Mínimo de \(CTM\): onde \(Cmg = CTM\), ou \(\frac{dCTM}{dQ} = 0\):

\[\frac{dCTM}{dQ} = 2Q - 6 - \frac{10}{Q^2} = 0\]

Numericamente: \(Q_{CTM_{min}} \approx 3.43\); \(CTM_{min} \approx 9.10\)


Exercícios — Escolha Múltipla (1) · Função de Custos

1. Para a função \(CT = 2Q^2 + 8Q + 50\), qual é o Custo Marginal?

  1. \(Cmg = 2Q^2 + 8Q\)
  2. \(Cmg = 4Q + 8\)
  3. \(Cmg = 2Q + 8\)
  4. \(Cmg = 4Q\)

Solução: B \(Cmg = \frac{dCT}{dQ} = 4Q + 8\).


Exercícios — Escolha Múltipla (2) · Função de Custos

2. Para qual das seguintes afirmações sobre custos a curto prazo a afirmação é falsa?

  1. O \(CFM\) é sempre decrescente com \(Q\).
  2. O \(Cmg\) interseta o \(CVM\) no mínimo do \(CVM\).
  3. O \(CTM\) interseta o \(CVM\) no mínimo do \(CVM\).
  4. O \(Cmg\) é independente do custo fixo.

Solução: C A afirmação c) é falsa. Quem interseta \(CVM\) no mínimo é o \(Cmg\), não o \(CTM\). O \(CTM\) é sempre maior que o \(CVM\) e interseta o \(Cmg\) no seu próprio mínimo.


Exercício de Desenvolvimento · Função de Custos

Enunciado: Uma empresa tem a função de custos totais \(CT = Q^3 - 9Q^2 + 30Q + 18\).

  1. Identifique \(CF\), \(CV(Q)\), \(CVM(Q)\), \(CTM(Q)\) e \(Cmg(Q)\).

  2. Determine a produção no mínimo de \(CVM\) e o respectivo valor mínimo. Confirme que \(Cmg = CVM\) nesse ponto.

  3. Determine a produção no mínimo de \(CTM\). Confirme que \(Cmg = CTM\) nesse ponto.


Solução — Desenvolvimento (a) · Função de Custos

\[CT = Q^3 - 9Q^2 + 30Q + 18\]

\[CF = 18 \qquad CV = Q^3 - 9Q^2 + 30Q\]

\[Cmg = 3Q^2 - 18Q + 30\]

\[CVM = \frac{CV}{Q} = Q^2 - 9Q + 30\] \[CTM = \frac{CT}{Q} = Q^2 - 9Q + 30 + \frac{18}{Q}\]


Solução — Desenvolvimento (b) e (c) · Função de Custos

Mínimo de \(CVM\) (\(Cmg = CVM\)): \[3Q^2 - 18Q + 30 = Q^2 - 9Q + 30\] \[2Q^2 - 9Q = 0 \implies Q(2Q - 9) = 0 \implies Q_{CVM_{min}} = 4.5\]

\(CVM(4.5) = 20.25 - 40.5 + 30 = 9.75\)

\(Cmg(4.5) = 3(20.25) - 18(4.5) + 30 = 60.75 - 81 + 30 = 9.75\)

Mínimo de \(CTM\) (\(Cmg = CTM\), ou \(\frac{dCTM}{dQ}=0\)):

\[\frac{dCTM}{dQ} = 2Q - 9 - \frac{18}{Q^2} = 0 \implies 2Q^3 - 9Q^2 - 18 = 0\]

Numericamente: \(Q_{CTM_{min}} \approx 4.88\); \(CTM(4.88) \approx Cmg(4.88) \approx 13.58\)

Geometria dos Custos

Geometria dos Custos

Objetivo: Compreender as relações geométricas entre as curvas de custo — como os declives e os raios de origem das curvas de \(CT\) e \(CV\) se relacionam com \(Cmg\), \(CVM\) e \(CTM\) — e sistematizar as correspondências entre produção e custos.


Ponte entre Produção e Custos

Já estabelecemos duas relações fundamentais:

\[Cmg = \frac{w}{MPL} \qquad CVM = \frac{w}{APL}\]

Isto implica uma simetria total entre as curvas de produto e as curvas de custo:

Produção Custo
\(MPL\) crescente \(\Rightarrow\) \(Cmg\) decrescente
\(MPL\) máximo \(\Rightarrow\) \(Cmg\) mínimo
\(MPL\) decrescente \(\Rightarrow\) \(Cmg\) crescente
\(APL\) máximo (ótimo técnico) \(\Rightarrow\) \(CVM\) mínimo

Derivação das Relações

\[Cmg = \frac{\Delta CT}{\Delta Q} = \frac{\Delta CV}{\Delta Q} = \frac{\Delta CV}{\Delta L}\cdot\frac{\Delta L}{\Delta Q} = \frac{w}{MPL}\]

\[CVM = \frac{CV}{Q} = \frac{wL}{Q} = \frac{w}{(Q/L)} = \frac{w}{APL}\]

A geometria das curvas de custo é um espelho invertido da geometria das curvas de produto: onde o produto tem máximo, o custo tem mínimo — e vice-versa.


Cmg é o Declive da Tangente a CV

\(Cmg\) num dado ponto é o declive da reta tangente à curva \(CV\) nesse ponto:


CVM é o Declive do Raio de Origem a CV

\(CVM(Q) = CV(Q)/Q\) é o declive do segmento que une a origem ao ponto \((Q, CV)\):

O mínimo de \(CVM\) ocorre onde o raio de origem é tangente à curva \(CV\). Nesse ponto, raio e tangente coincidem \(\Rightarrow\) \(Cmg = CVM\).


CTM é o Declive do Raio de Origem a CT

Analogamente, \(CTM(Q) = CT(Q)/Q\) é o declive do raio de origem à curva \(CT\):


Diagrama Duplo: CT/CV acima, Custos Médios abaixo


4 Correspondências Fundamentais

  1. \(MPL\) máximo \(\;\Leftrightarrow\;\) \(Cmg\) mínimo — ponto de inflexão em ambas as curvas

  2. \(APL\) máximo (ótimo técnico) \(\;\Leftrightarrow\;\) \(CVM\) mínimo

  3. \(Cmg\) interseta \(CVM\) no mínimo de \(CVM\) \(\;(Cmg = CVM)\)

  4. \(Cmg\) interseta \(CTM\) no mínimo de \(CTM\) \(\;(Cmg = CTM)\), e \(Q_{CTM_{min}} > Q_{CVM_{min}}\) sempre


Porquê Cmg interseta CVM no mínimo?

Raciocínio pela média:

  • \(Cmg < CVM\): a última unidade custa menos que a média \(\Rightarrow\) média desce
  • \(Cmg > CVM\): a última unidade custa mais que a média \(\Rightarrow\) média sobe
  • \(Cmg = CVM\): a média está no seu ponto de viragem \(\Rightarrow\) mínimo

Analogia: numa série de notas de teste, se a nota seguinte for abaixo da média atual, a média desce; se for acima, sobe. A nota que iguala a média é indiferente — é o ponto de mínimo (ou máximo) da média.


CFM, CVM e CTM quando Q → ∞

\[CTM = CFM + CVM = \frac{CF}{Q} + CVM\]

Quando \(Q \to +\infty\): \(\;CFM \to 0\;\) e portanto \(\;CTM \to CVM\).


Exercícios — Escolha Múltipla (1) · Geometria dos Custos

1. Para a função \(CT = Q^3 - 12Q^2 + 60Q + 20\), o mínimo do Custo Marginal ocorre em:

  1. \(Q = 3\)
  2. \(Q = 4\)
  3. \(Q = 6\)
  4. \(Q = 12\)

Solução: \(Cmg = 3Q^2 - 24Q + 60\).

Mínimo: \(dCmg/dQ = 6Q - 24 = 0 \Rightarrow Q = 4\).

\(Cmg(4) = 48 - 96 + 60 = 12\).

Condição de 2.ª ordem: \(d^2Cmg/dQ^2 = 6 > 0\) → mínimo ✓


Exercícios — Escolha Múltipla (2) · Geometria dos Custos

2. Qual das seguintes afirmações é verdadeira?

  1. O \(CTM\) interseta o \(CVM\) no mínimo do \(CVM\).
  2. O mínimo de \(CTM\) ocorre sempre para \(Q\) menor do que o mínimo de \(CVM\).
  3. O \(CFM\) é sempre decrescente e tende para zero quando \(Q\) aumenta.
  4. O \(Cmg\) é sempre crescente.

Solução:

  • a) Falsa — é o \(Cmg\) que interseta \(CVM\) no seu mínimo.
  • b) Falsa — o mínimo de \(CTM\) ocorre para \(Q\) maior que o de \(CVM\).
  • c) Verdadeira — \(CFM = CF/Q\) é decrescente em \(Q\); \(\lim_{Q\to\infty} CFM = 0\).
  • d) Falsa — \(Cmg\) decresce na Etapa I e cresce na Etapa II.

Exercício de Desenvolvimento · Geometria dos Custos

Enunciado: Seja \(CT = \dfrac{1}{3}Q^3 - 5Q^2 + 30Q + 48\).

  1. Identifique \(CF\), \(CV\), \(Cmg\), \(CVM\) e \(CTM\).

  2. Encontre o mínimo de \(Cmg\) e o mínimo de \(CVM\). Confirme que \(Cmg = CVM\) no mínimo de \(CVM\).

  3. Verifique que o mínimo de \(CTM\) ocorre para um valor de \(Q\) superior ao mínimo de \(CVM\).


Solução — Desenvolvimento (a) · Geometria dos Custos

\[CF = 48, \qquad CV = \tfrac{1}{3}Q^3 - 5Q^2 + 30Q\]

\[Cmg = Q^2 - 10Q + 30, \quad CVM = \tfrac{1}{3}Q^2 - 5Q + 30\]

\[CTM = \tfrac{1}{3}Q^2 - 5Q + 30 + \tfrac{48}{Q}\]


Solução — Desenvolvimento (b) · Geometria dos Custos

Mínimo de \(Cmg\): \(dCmg/dQ = 2Q - 10 = 0 \;\Rightarrow\; Q = 5\); \(\quad Cmg(5) = 25 - 50 + 30 = 5\)

Mínimo de \(CVM\) — igualar \(Cmg = CVM\):

\[Q^2 - 10Q + 30 = \tfrac{1}{3}Q^2 - 5Q + 30 \;\Rightarrow\; \tfrac{2}{3}Q^2 - 5Q = 0 \;\Rightarrow\; Q\!\left(\tfrac{2}{3}Q - 5\right) = 0 \;\Rightarrow\; Q_{CVM_{min}} = 7.5\]

\(CVM(7.5) = \tfrac{1}{3}(56.25) - 37.5 + 30 = 18.75 - 37.5 + 30 = 11.25\)

\(Cmg(7.5) = 56.25 - 75 + 30 = 11.25\) ✓


Solução — Desenvolvimento (c)

Mínimo de \(CTM\): \(dCTM/dQ = 0\):

\[\frac{2}{3}Q - 5 - \frac{48}{Q^2} = 0 \quad\Rightarrow\quad \frac{2}{3}Q^3 - 5Q^2 - 48 = 0\]

Por tentativas:

\(Q = 8\!:\) \(\tfrac{2}{3}(512) - 5(64) - 48 = 341.3 - 320 - 48 = -26.7 < 0\)

\(Q = 8.5\!:\) \(\tfrac{2}{3}(614.1) - 5(72.25) - 48 = 409.4 - 361.3 - 48 \approx 0.1 \approx 0\) ✓

\(\Rightarrow Q_{CTM_{min}} \approx 8.5\)

\(CTM(8.5) = \tfrac{1}{3}(72.25) - 42.5 + 30 + \tfrac{48}{8.5} \approx 24.08 - 42.5 + 30 + 5.65 \approx 17.23\)

\(Cmg(8.5) = 72.25 - 85 + 30 = 17.25\) ✓

Conclusão: \(Q_{CTM_{min}} \approx 8.5 > Q_{CVM_{min}} = 7.5\) ✓

Otimização Concorrencial

Otimização do Produtor: Mercado Concorrencial

Objetivo: Derivar a condição ótima de produção em concorrência perfeita (\(P = Cmg\)), identificar os limiares de rendibilidade e encerramento, e construir a curva de oferta individual.


Estruturas de Mercado

Nesta secção estudamos a Concorrência Perfeita — a estrutura de mercado de referência.


Hipóteses da Concorrência Perfeita

  • Mercado atomizado: cada empresa representa uma fração ínfima do mercado — individualmente, ninguém influencia o preço
  • Produto homogéneo: os compradores são indiferentes entre fornecedores
  • Price takers: cada empresa toma o preço de mercado \(P\) como dado (exógeno)
  • Livre entrada e saída do mercado
  • Informação perfeita

A hipótese-chave é que a empresa não tem poder de mercado: para ela, \(P\) é uma constante.


Maximização do Lucro

\[\max_{Q_i} \Pi_i = RT - CT = P \cdot Q_i - CT(Q_i)\]

Condição de Primeira Ordem (CPO):

\[\frac{d\Pi_i}{dQ_i} = P - \frac{dCT}{dQ_i} = 0 \;\Rightarrow\; \boxed{P = Cmg}\]

Condição de Segunda Ordem (CSO):

\[\frac{d^2\Pi_i}{dQ_i^2} = -\frac{dCmg}{dQ_i} < 0 \;\Rightarrow\; Cmg \text{ crescente}\]

A empresa produz onde \(P = Cmg\) na zona crescente de \(Cmg\) — que coincide com a Zona Económica de Exploração.


Intuição: P = Cmg como Cmg = Bmg

\[P = Cmg\]

  • \(P\) é o benefício marginal de produzir uma unidade adicional (receita por unidade vendida)
  • \(Cmg\) é o custo marginal de produzir essa unidade
  • Se \(P > Cmg\): produzir mais aumenta o lucro → expandir
  • Se \(P < Cmg\): produzir mais reduz o lucro → contrair
  • Se \(P = Cmg\): lucro é máximo ✓

É novamente o princípio fundamental da racionalidade: benefício marginal = custo marginal.


Lucro Gráfico: caso P > CTM

\(\Pi^* = Q_i^* \cdot (P^* - CTM(Q_i^*)) > 0\) quando \(P^* > CTM\) ✓


Lucro Gráfico: caso P < CTM mas P > CVM

\(P > CVM\): a receita cobre os custos variáveis e parte dos fixos → prejuízo \(< CF\) → manter-se em funcionamento


Lucro e Prejuízo: Sistematização

\[\Pi = Q_i \cdot (P - CTM) = Q_i \cdot (P - CVM - CFM)\]

  • \(P > CTM\): lucro positivo — produzir ao nível \(P = Cmg\)
  • \(CVM < P < CTM\): prejuízo \(< CF\) — vale a pena continuar a produzir (cobrem-se os custos variáveis e parte dos fixos)
  • \(P = CVM_{min}\): limiar de encerramento \(P_0\) — indiferente entre produzir \(Q_0\) e encerrar
  • \(P < CVM_{min}\): encerrar — prejuízo \(> CF\); encerrando perde-se apenas \(CF\)

Os Dois Limiares

  • \(P_0 = CVM_{min}\): limiar de encerramento — abaixo deste preço, a empresa fecha
  • \(P_1 = CTM_{min}\): limiar de rendibilidade — acima deste preço, a empresa tem lucro \(> 0\)

Curva de Oferta Individual · Otimização (1)

A curva de oferta é o conjunto de pares \((Q, P)\) que constituem a escolha ótima para cada preço:

\[S_i: \quad P = Cmg(Q_i) \quad \text{para } P \geq P_0 = CVM_{min}\]

Curva de Oferta Individual · Otimização (2)


Lei da Oferta

A curva de oferta tem inclinação positiva: se \(P\) sobe, \(Q_i^*\) sobe — e vice-versa.

Porquê? Na Zona Económica de Exploração, \(Cmg\) é crescente. Para um preço mais alto, a igualdade \(P = Cmg\) dá-se num nível de \(Q\) mais elevado.

Fundamento último: Lei dos Rendimentos Marginais Decrescentes \(\Rightarrow\) \(Cmg\) crescente \(\Rightarrow\) curva de oferta positivamente inclinada.

A variação do preço de venda move ao longo da curva de oferta. A variação de fatores exógenos (preço dos inputs, tecnologia) desloca a curva inteira.


Determinantes da Oferta · Otimização

O preço de venda \(P\) é o único fator que move ao longo da curva. Os restantes fatores deslocam a curva:

  • Preços dos fatores \(w, r\) ↑ → custos sobem → oferta contrai (curva desloca para cima/esquerda)
  • Tecnologia \(A\) melhora → custos descem → oferta expande (curva desloca para baixo/direita)
  • Preço de materiais \(p_m\) ↑ → custos sobem → oferta contrai
  • Número de empresas ↑ → oferta de mercado expande

Exemplo Resolvido · Otimização

Dados: \(CT = Q^3 - 60Q^2 + 1200Q + 1000\)

  1. Determine \(Cmg\), \(CVM\), \(CTM\).
  2. Calcule os limiares de encerramento e rendibilidade.
  3. Identifique a curva de oferta.
  4. Se \(P = 330.75\), a empresa produz ou encerra? Tem lucro ou prejuízo?

Exemplo — Resolução (a) e (b)

\[Cmg = 3Q^2 - 120Q + 1200\] \[CVM = Q^2 - 60Q + 1200 \qquad CTM = Q^2 - 60Q + 1200 + \tfrac{1000}{Q}\]

Limiar de encerramento — mínimo de \(CVM\) (\(Cmg = CVM\)):

\[3Q^2 - 120Q + 1200 = Q^2 - 60Q + 1200\] \[2Q^2 - 60Q = 0 \;\Rightarrow\; Q_0 = 30\]

\[P_0 = CVM(30) = 900 - 1800 + 1200 = \mathbf{300}\]

Limiar de rendibilidade — mínimo de \(CTM\): por tentativas,

\(Q = 30.5\!:\) \(CTM = (30.5)^2 - 60(30.5) + 1200 + \tfrac{1000}{30.5} = 930.25 - 1830 + 1200 + 32.79 \approx 333\)

\[P_1 \approx \mathbf{333}\]


Exemplo — Resolução (c) e (d)

Curva de oferta:

\[S_i\!: \quad P = 3Q^2 - 120Q + 1200 \quad \text{para } P \geq 300\]

Para \(P = 330.75\): igualar \(P = Cmg\):

\[3Q^2 - 120Q + 1200 = 330.75 \;\Rightarrow\; 3Q^2 - 120Q + 869.25 = 0\]

\[\begin{aligned} Q &= \frac{120 \pm \sqrt{14400 - 4 \times 3 \times 869.25}}{6} = \frac{120 \pm \sqrt{14400 - 10431}}{6} \\[2pt] &= \frac{120 \pm \sqrt{3969}}{6} = \frac{120 \pm 63}{6} \end{aligned}\]

\(Q_a = 9.5\) (zona decrescente de \(Cmg\) — inválido); \(\quad Q^* = \dfrac{120+63}{6} = 30.5\)

\(CVM(30.5) = 930.25 - 1830 + 1200 = 300.25 < 330.75\) → produz

\(CTM(30.5) \approx 333 > 330.75\) → prejuízo (mas menor que \(CF\)) ✓


Exercícios — Escolha Múltipla (1) · Otimização

1. Uma empresa em concorrência perfeita tem \(Cmg = 2Q + 4\) e \(CVM_{min} = 4\) (para \(Q = 0\)). Se o preço de mercado for \(P = 14\), qual a produção ótima?

  1. \(Q^* = 4\)
  2. \(Q^* = 5\) ✓
  3. \(Q^* = 7\)
  4. A empresa encerra.

Solução: \(P = Cmg \Rightarrow 14 = 2Q + 4 \Rightarrow Q^* = 5\).

Verificação de encerramento: \(P = 14 > CVM_{min} = 4\) → não encerra ✓


Exercícios — Escolha Múltipla (2) · Otimização

2. Para uma empresa em concorrência perfeita com \(CT = 2Q^2 + 6Q + 50\), qual o limiar de encerramento?

  1. \(P_0 = 6\) ✓
  2. \(P_0 = 10\)
  3. \(P_0 = 50\)
  4. \(P_0 = 56\)

Solução: \(CV = 2Q^2 + 6Q\); \(CVM = 2Q + 6\).

\(CVM\) é crescente para todo \(Q > 0\) (é uma reta), logo o mínimo é em \(Q \to 0\): \(CVM_{min} = 6\).

Verificação: \(Cmg = 4Q + 6\). \(Cmg = CVM \Rightarrow 4Q + 6 = 2Q + 6 \Rightarrow Q = 0\). \(CVM(0) = 6\) ✓

\(P_0 = 6\).


Exercício de Desenvolvimento · Otimização

Enunciado: Uma empresa em concorrência perfeita tem \(CT = Q^3 - 9Q^2 + 30Q + 18\).

  1. Determine \(Cmg\), \(CVM\) e \(CTM\).

  2. Calcule os limiares de encerramento e rendibilidade.

  3. Se \(P = 12\), qual a produção ótima? Tem lucro ou prejuízo? Deve manter-se em funcionamento?

  4. Escreva a expressão da curva de oferta desta empresa.


Solução — Desenvolvimento (a) e (b)

\[Cmg = 3Q^2 - 18Q + 30, \quad CVM = Q^2 - 9Q + 30, \quad CTM = Q^2 - 9Q + 30 + \tfrac{18}{Q}\]

Limiar de encerramento (\(Cmg = CVM\)):

\[3Q^2 - 18Q + 30 = Q^2 - 9Q + 30 \;\Rightarrow\; 2Q^2 - 9Q = 0 \;\Rightarrow\; Q_0 = 4.5\]

\[P_0 = CVM(4.5) = 20.25 - 40.5 + 30 = \mathbf{9.75}\]

Limiar de rendibilidade (\(Cmg = CTM\)):

\[3Q^2 - 18Q + 30 = Q^2 - 9Q + 30 + \tfrac{18}{Q} \;\Rightarrow\; 2Q^3 - 9Q^2 - 18 = 0\]

Por tentativas: \(Q = 4.88 \Rightarrow CTM(4.88) \approx 13.58\).

\[P_1 \approx \mathbf{13.58}\]


Solução — Desenvolvimento (c) e (d)

Para \(P = 12\): igualar \(P = Cmg\):

\[3Q^2 - 18Q + 30 = 12 \;\Rightarrow\; 3Q^2 - 18Q + 18 = 0 \;\Rightarrow\; Q^2 - 6Q + 6 = 0\]

\[Q = \frac{6 \pm \sqrt{36 - 24}}{2} = \frac{6 \pm \sqrt{12}}{2} = 3 \pm \sqrt{3}\]

\(Q_a = 3 - \sqrt{3} \approx 1.27\) (zona decrescente de \(Cmg\) — inválido)

\(Q^* = 3 + \sqrt{3} \approx 4.73\)

\(CVM(4.73) = 22.37 - 42.57 + 30 = 9.80\)

\(CTM(4.73) = 9.80 + 18/4.73 = 9.80 + 3.81 = 13.61\)

\(P = 12 > P_0 = 9.75\) → mantém-se em funcionamento ✓

\(P = 12 < P_1 \approx 13.58\) → tem prejuízo (mas inferior a \(CF = 18\)) ✓

Curva de oferta: \(S_i\!: P = 3Q^2 - 18Q + 30\) para \(P \geq 9.75\)

A Oferta

Revisão: A Escolha Ótima do Produtor

No mercado de concorrência perfeita, a empresa \(i\) toma o preço \(p\) como dado e resolve:

\[\max_{Q_i} \Pi = p Q_i - CV(Q_i) - CF\]

A condição de primeira ordem (CPO) dá:

\[\frac{d\Pi}{dQ_i} = 0 \iff p = CMg(Q_i)\]

A condição de segunda ordem (CSO) exige que \(CMg\) seja crescente no ponto ótimo.

. . .

Importante

A quantidade ótima situa-se na parte ascendente da curva \(CMg\).


Rendibilidade: Lucro vs Prejuízo

O lucro pode ser reescrito em termos de custos médios:

\[\Pi = pQ - CT = Q(p - CTM)\]

Condição Resultado
\(p > CTM\) \(\Pi > 0\) — Lucro
\(p = CTM\) \(\Pi = 0\) — Ponto de equilíbrio (break-even)
\(CVM \leq p < CTM\) \(\Pi < 0\) — Prejuízo, mas a empresa produz
\(p < CVM\) \(\Pi < 0\) — Empresa deve encerrar

. . .

A questão central: mesmo com prejuízo, quando vale a pena continuar a produzir?


Decisão de Encerramento: a lógica

No curto prazo, os custos fixos são irrecuperáveis (sunk costs): a empresa paga-os independentemente de produzir ou não.

A decisão relevante é comparar:

  • Produzir: \(\Pi = RT - CV - CF\)
  • Encerrar (Q=0): \(\Pi = -CF\)

. . .

A empresa produz se produzir for menos mau do que encerrar:

\[RT - CV - CF \geq -CF\] \[RT \geq CV\] \[p \geq CVM\]

. . .

Importante

Limiar de encerramento: a empresa fecha se \(p < CVM_{min}\).
Enquanto \(p \geq CVM_{min}\), compensa produzir mesmo com prejuízo.


Os Três Cenários de Rendibilidade


Limiar de Encerramento: geometria

O limiar de encerramento é o preço mínimo que justifica produzir: \(p_{enc} = CVM_{min}\), onde \(CMg = CVM\).

No mínimo de \(CVM\):

  • \(CMg = CVM\) (propriedade algébrica)
  • Se \(p < p_{enc}\): encerra (\(Q=0\))
  • Se \(p = p_{enc}\): indiferente
  • Se \(p > p_{enc}\): produz em \(CMg = p\)

Nota: No curto prazo a empresa pode ter prejuízo e continuar a operar, desde que cubra os custos variáveis.


A Curva de Oferta Individual

No mercado concorrencial, a curva de oferta individual é a curva \(CMg\) acima do limiar de encerramento.

\[S_i(p) = \begin{cases} Q_i^* : p = CMg(Q_i^*), \ CMg \text{ crescente} & \text{se } p \geq CVM_{min} \\ 0 & \text{se } p < CVM_{min} \end{cases}\]

. . .


Oferta de Mercado

A oferta de mercado agrega as ofertas individuais de todas as \(n\) empresas:

\[Q_S(p) = \sum_{i=1}^{n} Q_i^S(p)\]

Se todas as \(n\) empresas forem idênticas com oferta individual \(Q_i^S(p)\):

\[Q_S = n \cdot Q_i^S(p)\]

. . .

Exemplo: Se cada empresa tem \(CMg = 2 + Q_i\) (logo \(Q_i^S = p - 2\), para \(p \geq 2\)) e existem \(n = 2\) empresas:

\[Q_S = 2(p-2) = 2p - 4 \quad (p \geq 2)\]

Na forma inversa: \(P = 2 + \frac{Q}{2}\) — a curva de oferta de mercado tem menor inclinação que a individual.


Determinantes da Oferta · Oferta

A curva de oferta desloca-se quando se alteram variáveis exógenas à empresa:

Variável Efeito sobre a oferta
Tecnologia \(A\) (melhor) \(\uparrow\) oferta (desloc. p/ direita)
Custo do capital \(r\) (sobe) \(\downarrow\) oferta
Salário \(w\) (sobe) \(\downarrow\) oferta
Preço de matérias-primas \(p_m\) (sobe) \(\downarrow\) oferta
Preço de bens intermédios \(p_i\) (sobe) \(\downarrow\) oferta

. . .

Nota

Uma alteração do preço de venda \(p\) não desloca a curva — apenas move a empresa ao longo da mesma curva de oferta.


Excedente do Produtor: definição

NotaExcedente do Produtor (EP)

O excedente do produtor é a diferença entre o que o produtor recebe e o mínimo que estaria disposto a aceitar por cada unidade produzida.

Graficamente: área acima da curva de oferta até ao preço de mercado.

. . .

Para a curva de oferta linear \(P = a + bQ\), ao preço de equilíbrio \(p^*\) e quantidade \(Q^*\):

\[EP = \frac{1}{2}(p^* - a) \cdot Q^*\]

. . .

Relação com o lucro:

\[\Pi = RT - CV - CF = EP - CF\]

O excedente do produtor é o lucro mais os custos fixos — ou seja, a contribuição da atividade para cobrir os custos fixos e gerar lucro.


Excedente do Produtor: geometria

O excedente total = \(EC + EP\) representa o ganho total das trocas no mercado.


Excedente do Produtor vs Lucro

Importante: numa curva de oferta linear com ordenada na origem \(a\) (= \(CVM_{min}\)):

\[EP = \frac{1}{2}(p^* - a) Q^* = RT - CV\]

\[\Pi = EP - CF\]

. . .

Sem CF Com CF (CP)
\(p > CTM\) — \(\Pi > 0\), empresa opera
\(CVM \leq p < CTM\) — \(\Pi < 0\), EP > 0, empresa opera
\(p = CVM_{min}\) EP = 0 \(\Pi = -CF\), limiar encerramento
\(p < CVM_{min}\) EP < 0 Empresa encerra

. . .

Importante

No longo prazo, os custos fixos desaparecem (todos os fatores são variáveis). Então EP = lucro económico de longo prazo.


Exercícios · Oferta (1)

Exercício 1 (Escolha Múltipla)

Uma empresa concorrencial tem \(CVM_{min} = 4€\) e \(CTM_{min} = 7€\). O preço de mercado é \(p = 5€\). Qual das seguintes afirmações é correta?

(A) A empresa encerra imediatamente, pois tem prejuízo.

(B) A empresa produz, pois o preço cobre os custos variáveis, mas tem prejuízo a curto prazo.

(C) A empresa tem lucro positivo.

(D) O excedente do produtor é negativo.

DicaSolução · Oferta (1)

Resposta: (B)
\(p = 5 > CVM_{min} = 4\) → a empresa produz (o preço cobre os custos variáveis).
\(p = 5 < CTM_{min} = 7\) → há prejuízo a curto prazo.
O EP = \(RT - CV > 0\), mas \(\Pi = EP - CF < 0\).


Exercícios · Oferta (2)

Exercício 2 (Escolha Múltipla)

Num mercado com 4 empresas idênticas, cada uma com \(CMg_i = Q_i\) (e limiar de encerramento em \(p=0\)). A procura de mercado é \(Q_d = 20 - P\). Qual o preço de equilíbrio?

(A) \(P^* = 2\)

(B) \(P^* = 4\)

(C) \(P^* = 6\)

(D) \(P^* = 8\)

DicaSolução · Oferta (2)

Resposta: (B)
Da oferta individual: \(P = CMg_i = Q_i \Rightarrow Q_i^S = P\).
Oferta de mercado: \(Q_S = 4P\).
Equilíbrio: \(4P = 20 - P \Rightarrow 5P = 20 \Rightarrow P^* = 4\).
Quantidade: \(Q^* = 20 - 4 = 16\). Verificação: \(Q_S = 4 \times 4 = 16\) ✓


Exercício 3 (Desenvolvimento) · Oferta

O mercado de um bem tem as seguintes equações (com \(P\) em €, \(Q\) em milhares de unidades):

\[Q_d = 24 - 2P \qquad Q_s = 2P - 4 \quad (P \geq 2)\]

a) Determine o preço e a quantidade de equilíbrio.

b) Calcule o Excedente do Consumidor (EC) e o Excedente do Produtor (EP).

c) Qual o excedente económico total? O que representa?

d) O preço mínimo da curva de oferta é \(P_{min} = 2€\). O que representa economicamente este valor?

DicaSolução · Oferta (3)

a) Equilíbrio: \(24 - 2P = 2P - 4 \Rightarrow 28 = 4P \Rightarrow P^* = 7€\), \(Q^* = 24-14 = 10\).

b) Intercepto da procura: \(Q_d=0 \Rightarrow P=12\). Intercepto da oferta: \(P=2\).
\(EC = \tfrac{1}{2}(12-7)\times 10 = 25\) (mil €) \(\quad EP = \tfrac{1}{2}(7-2)\times 10 = 25\) (mil €)

c) \(EE = EC + EP = 50\) mil €. Representa o valor total gerado pelas trocas voluntárias neste mercado.

d) \(P_{min} = 2€\) é o limiar de encerramento — abaixo deste preço nenhuma empresa produz.


Síntese · Oferta

  • A empresa maximiza \(\Pi\) produzindo onde \(p = CMg\) (parte ascendente).
  • A rendibilidade depende de \(p\) vs \(CTM\): lucro se \(p > CTM\), prejuízo se \(p < CTM\).
  • Mesmo com prejuízo, a empresa não encerra enquanto \(p \geq CVM_{min}\) — os custos fixos são irrecuperáveis.
  • O limiar de encerramento é \(p_{enc} = CVM_{min}\) (mínimo da curva \(CVM\)).
  • A curva de oferta individual = curva \(CMg\) acima de \(p_{enc}\).
  • A oferta de mercado = soma das ofertas individuais.
  • O excedente do produtor é a área acima da oferta até ao preço: \(EP = RT - CV\).
  • Relação fundamental: \(\Pi = EP - CF\).

Equilíbrio de Mercado no Curto Prazo

O que é o Equilíbrio de Mercado?

O mercado de concorrência perfeita está em equilíbrio quando:

. . .

  • Os consumidores compram exatamente a quantidade que desejavam adquirir ao preço vigente
  • Os produtores vendem exatamente a quantidade que planeavam oferecer
  • Não existe incentivo para nenhum agente alterar o seu comportamento

. . .

Importante

Condição de equilíbrio: \(Q_d(p^*) = Q_s(p^*)\)

Ao preço de equilíbrio \(p^*\), a quantidade procurada iguala a quantidade oferecida.


Equilíbrio de Mercado: geometria

O ponto E é o equilíbrio: a “mão invisível” de Adam Smith (1776) conduz os agentes até aqui.


A Mão Invisível e a Eficiência

“Cada indivíduo não pretende promover o interesse público, nem sabe em que medida o está a promover. Ele é conduzido por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte dos seus planos.” — Adam Smith, A Riqueza das Nações, 1776

. . .

Em mercados concorrenciais, sem falhas de mercado:

  • O equilíbrio resulta do ajustamento automático do preço
  • É gerado por decisões descentralizadas e racionais
  • O resultado é eficiente: o excedente total é máximo

Desequilíbrio: Excesso de Oferta

Quando \(p > p^*\): a quantidade oferecida excede a procurada — há excesso de oferta.

\(p_1 > p^* \Rightarrow q_s > q_d\) → produtores não conseguem escoar a produção → preço desce até \(p^*\).


Desequilíbrio: Excesso de Procura

Quando \(p < p^*\): a quantidade procurada excede a oferecida — há excesso de procura.

\(p_2 < p^* \Rightarrow q_d > q_s\) → consumidores não encontram o bem → preço sobe até \(p^*\).


Dinâmicas: Expansão da Procura

O que acontece quando a procura aumenta (desloca-se para a direita)?

\(D \uparrow\) → excesso de procura ao preço antigo → preço sobe → quantidade de equilíbrio aumenta.


Dinâmicas: Expansão da Oferta

O que acontece quando a oferta aumenta (desloca-se para a direita)?

\(S \uparrow\) → excesso de oferta ao preço antigo → preço desce → quantidade de equilíbrio aumenta.


Resumo das Dinâmicas

Alteração Efeito sobre \(P^*\) Efeito sobre \(Q^*\)
\(\uparrow\) Procura \(\uparrow\) \(\uparrow\)
\(\downarrow\) Procura \(\downarrow\) \(\downarrow\)
\(\uparrow\) Oferta \(\downarrow\) \(\uparrow\)
\(\downarrow\) Oferta \(\uparrow\) \(\downarrow\)
\(\uparrow\) Procura e \(\uparrow\) Oferta ? \(\uparrow\)
\(\uparrow\) Procura e \(\downarrow\) Oferta \(\uparrow\) ?

. . .

Quando dois choques ocorrem simultaneamente, o efeito num dos preços ou quantidades pode ser indeterminado — depende da magnitude relativa dos choques.


Empresa vs. Mercado no Curto Prazo

No equilíbrio, o preço \(p^*\) é formado pela interação de todos os agentes. Cada empresa \(i\) toma-o como dado e otimiza individualmente.

A empresa \(i\)

  • Enfrenta procura horizontal \(D_i: p = p^*\)
  • Produz onde \(p^* = CMg_i\) (parte ascendente)
  • A curva \(CMg_i\) ascendente é a sua oferta individual

O mercado

  • \(D\) e \(S\) determinam \(p^*\) e \(Q^*\)
  • \(Q^* = \sum_i q_i^*\) (soma das escolhas individuais)
  • Cada empresa é price-taker

. . .

Nota

No curto prazo, o número de empresas é fixo. O preço de equilíbrio pode ser tal que as empresas tenham lucro, prejuízo, ou resultado nulo — dependendo de \(p^*\) vs \(CTM\).


Excedente Económico Total

NotaExcedente Económico Total (EE)

\[EE = EC + EP\]

O excedente total mede o valor gerado pelas trocas no mercado — o ganho mútuo que consumidores e produtores obtêm ao transacionarem, em vez de não o fazerem.

. . .


Excedente Total e Eficiência

O excedente total é máximo no equilíbrio concorrencial — qualquer outra quantidade transacionada reduz-o.

. . .

Quantidade abaixo de \(Q^*\) (\(Q < Q^*\)):

  • Há trocas mutuamente benéficas que não ocorrem
  • Produz-se menos do que seria desejável
  • Perda de eficiência (deadweight loss)

Quantidade acima de \(Q^*\) (\(Q > Q^*\)):

  • Produzem-se unidades cujo custo excede o benefício
  • O valor para o consumidor é inferior ao custo de produção
  • Também há perda de eficiência

. . .

Importante

A concorrência perfeita maximiza o excedente total — por isso se diz que é a estrutura de mercado eficiente, na ausência de falhas de mercado.


Excedente após um Choque de Procura

Quando a procura se expande de \(D\) para \(D'\), o novo equilíbrio gera mais excedente total.

A expansão da procura beneficia ambos os lados do mercado: EC e EP aumentam.


Exercícios · Equilíbrio CP (1)

Exercício 1 (Escolha Múltipla)

Num mercado, a oferta de um bem reduz-se (a curva desloca-se para a esquerda). Ceteris paribus, o que acontece ao equilíbrio?

(A) O preço sobe e a quantidade de equilíbrio aumenta.

(B) O preço desce e a quantidade de equilíbrio aumenta.

(C) O preço sobe e a quantidade de equilíbrio diminui.

(D) O preço desce e a quantidade de equilíbrio diminui.

DicaSolução · Equilíbrio CP (1)

Resposta: (C)
Redução da oferta → curva \(S\) desloca para a esquerda → excesso de procura ao preço anterior → preço sobe. Com preço mais alto e procura inalterada, a quantidade transacionada diminui.


Exercícios · Equilíbrio CP (2)

Exercício 2 (Escolha Múltipla)

Num mercado em equilíbrio com \(p^* = 10\) e \(Q^* = 20\). A curva de procura é linear com ordenada na origem \(P = 20 - \frac{Q}{2}\) e a oferta tem ordenada na origem \(P = 2\) (no eixo dos preços). Qual o excedente económico total?

(A) 100

(B) 160

(C) 180

(D) 200

DicaSolução · Equilíbrio CP (2)

Resposta: (C)
\(EC = \tfrac{1}{2}(20 - 10)\times 20 = 100\)
\(EP = \tfrac{1}{2}(10 - 2)\times 20 = 80\)
\(EE = EC + EP = 180\)


Exercício 3 (Desenvolvimento) · Equilíbrio CP

O mercado de um bem tem as equações \(Q_d = 18 - 2P \qquad Q_s = 2P - 2\)

a) Calcule o preço e a quantidade de equilíbrio.

b) Calcule o excedente do consumidor (EC), excedente do produtor (EP) e o excedente total (EE).

c) A procura expande-se para \(Q_d' = 22 - 2P\). Determine o novo equilíbrio e os novos excedentes. Quem ganha mais com esta expansão?

d) Utilizando a tabela de dinâmicas, explique o que aconteceria se, simultaneamente, a procura expandisse e a oferta contraísse.

DicaSolução · Equilíbrio CP (3)

a) \(18 - 2P = 2P - 2 \Rightarrow 4P = 20 \Rightarrow P^* = 5\), \(Q^* = 8\).

b) Interceptos: procura \(P=9\), oferta \(P=1\).
\(EC = \tfrac{1}{2}(9-5)\times 8 = 16\) \(\quad\) \(EP = \tfrac{1}{2}(5-1)\times 8 = 16\) \(\quad\) \(EE = 32\).

c) \(22 - 2P = 2P - 2 \Rightarrow 4P = 24 \Rightarrow P^{*\prime} = 6\), \(Q^{*\prime} = 10\).
Novo intercepto da procura: \(Q_d'=0 \Rightarrow P=11\).
\(EC' = \tfrac{1}{2}(11-6)\times 10 = 25\) \(\quad\) \(EP' = \tfrac{1}{2}(6-1)\times 10 = 25\) \(\quad\) \(EE' = 50\).
Ambos ganham igual (\(+9\) cada). O excedente total aumentou \(+18\).

d) Procura \(\uparrow\) e oferta \(\downarrow\): o preço sobe inequivocamente (\(\uparrow P\)). O efeito na quantidade é indeterminado — depende da magnitude relativa dos dois choques.


Síntese · Equilíbrio CP

  • O equilíbrio ocorre onde \(Q_d = Q_s\); ao preço \(p^*\) nenhum agente quer desviar-se.
  • O ajustamento é automático: excesso de oferta faz o preço descer; excesso de procura faz-o subir.
  • Deslocações da curva \(D\) ou \(S\) alteram o equilíbrio — o sentido depende da direção do choque.
  • Com dois choques simultâneos, um dos efeitos (\(P^*\) ou \(Q^*\)) pode ser indeterminado.
  • O excedente total \(EE = EC + EP\) é máximo no equilíbrio concorrencial.
  • Qualquer quantidade diferente de \(Q^*\) implica perda de eficiência (deadweight loss).
  • A expansão da procura ou da oferta beneficia ambos os lados do mercado — o EE aumenta.

Longo Prazo e Isoquantas

Curto Prazo vs. Longo Prazo · Isoquantas

No curto prazo, pelo menos um fator produtivo é fixo (tipicamente o capital \(K\)), dando origem a custos fixos.

. . .

No longo prazo, todos os fatores são variáveis — a empresa pode escolher livremente a combinação de capital \(K\) e trabalho \(L\):

  • Não existem custos fixos
  • A empresa tem mais graus de liberdade
  • Pode sempre alcançar custos médios iguais ou menores do que no curto prazo

. . .

Importante

Problema do produtor a longo prazo: encontrar a combinação \((K, L)\) que minimiza o custo de produzir uma dada quantidade \(Q^*\).


O Problema de Otimização de Longo Prazo

\[\min_{K,\, L} \; rK + wL \qquad \text{sujeito a} \quad F(K,L) = Q^*\]

onde \(r\) é o custo unitário do capital e \(w\) o custo unitário do trabalho.

. . .

Símbolo Significado
\(r\) Custo de aluguer/uso do capital (taxa de juro, amortização)
\(w\) Salário (custo do trabalho)
\(rK + wL\) Custo total a minimizar
\(F(K,L) = Q^*\) Restrição: produzir exatamente \(Q^*\)

. . .

A restrição \(F(K,L) = Q^*\) define todas as combinações \((K,L)\) que produzem \(Q^*\) — a isoquanta.


Isoquanta: definição

NotaIsoquanta

Curva que representa todas as combinações de capital \(K\) e trabalho \(L\) que permitem obter a mesma quantidade produzida \(Q^*\).

\[\{(K, L) : F(K, L) = Q^*\}\]

É uma curva de nível da função de produção ao nível \(Q^*\).

. . .

Para funções da família \(F(K,L) = A K^a L^b\), a isoquanta é uma hipérbole no espaço \((L, K)\).

Isoquantas mais afastadas da origem correspondem a níveis de produção mais elevados.


Isoquantas: geometria

Ao longo de cada isoquanta, \(K\) e \(L\) são substituíveis — reduzir um fator obriga a aumentar o outro para manter \(Q^*\).


Taxa Marginal de Substituição Técnica (TMST)

A inclinação da isoquanta mede a taxa a que a empresa troca \(L\) por \(K\) mantendo a produção constante:

\[TMST_{L,K} = -\frac{dK}{dL}\bigg|_{Q=Q^*} = \frac{PMg_L}{PMg_K}\]

. . .

  • A TMST é decrescente ao longo da isoquanta (lei dos rendimentos marginais decrescentes)
  • Quando se tem muito \(K\) e pouco \(L\), o trabalho é muito produtivo → troca-se muito \(K\) por uma unidade de \(L\)
  • Conforme se substitui \(K\) por \(L\), a TMST diminui

. . .

Nota

A TMST é análoga ao \(TMS\) do consumidor — aqui avalia a substituição de fatores em vez de bens de consumo.


Isocusto: definição

NotaIsocusto

Reta formada por todas as combinações de \(K\) e \(L\) com o mesmo custo total \(\overline{CT}\):

\[\overline{CT} = rK + wL \quad \Longleftrightarrow \quad K = \frac{\overline{CT}}{r} - \frac{w}{r} L\]

. . .

Interceptos:

  • Eixo \(K\) (\(L=0\)): \(K = \dfrac{\overline{CT}}{r}\)
  • Eixo \(L\) (\(K=0\)): \(L = \dfrac{\overline{CT}}{w}\)

Inclinação: \(-\dfrac{w}{r}\) (razão dos preços dos fatores)

Isocustos mais afastados da origem correspondem a custos totais mais elevados.

A inclinação é constante — os preços dos fatores são dados para a empresa.


Isocusto: geometria

Isocustos paralelos: mesma inclinação \(-w/r\), diferentes níveis de custo.


A Condição de Ótimo

O mínimo de custo para produzir \(Q^*\) ocorre no ponto onde a isoquanta é tangente ao isocusto:

\[TMST_{L,K} = \frac{w}{r} \qquad \Longleftrightarrow \qquad \frac{PMg_L}{PMg_K} = \frac{w}{r}\]

. . .

Interpretação: no ótimo, o “valor” marginal de cada euro gasto em \(L\) iguala o de cada euro gasto em \(K\):

\[\frac{PMg_L}{w} = \frac{PMg_K}{r}\]

. . .

Importante

Se \(\dfrac{PMg_L}{w} > \dfrac{PMg_K}{r}\): o trabalho é relativamente mais produtivo por euro → convém substituir \(K\) por \(L\).

Só no ótimo é que a empresa não tem incentivo a realocar fatores.


Exemplo Resolvido · Isoquantas

\(F(K,L) = K^{0.5} L^{0.5}\), \(Q^* = 100\), \(r = w = 5\).

Passo 1 — Isoquanta: \(100 = K^{0.5}L^{0.5}\) \(\Rightarrow\) \(KL = 10{,}000\) \(\Rightarrow\) \(K = \dfrac{10{,}000}{L}\)

. . .

Passo 2 — Substituir na função custo: \[CT(L) = 5 \cdot \frac{10{,}000}{L} + 5L = \frac{50{,}000}{L} + 5L\]

. . .

Passo 3 — CPO: \[\frac{dCT}{dL} = -\frac{50{,}000}{L^2} + 5 = 0 \;\Rightarrow\; L^2 = 10{,}000 \;\Rightarrow\; L^* = 100\]

. . .

Resultado: \(L^* = 100\), \(K^* = 100\), \(CT^* = 500 + 500 = 1{,}000\).

Verificação da condição de ótimo: \(TMST = K/L = 1 = w/r = 5/5 = 1\) ✓


Isoquanta + Isocusto: o ótimo graficamente

Os pontos \(a\) e \(b\) também produzem \(Q^*\), mas com custo maior — estão sobre isocustos superiores.


Custos de Longo Prazo são Menores

No curto prazo, \(K\) está fixo em \(K_1 \neq K^*\): a empresa não pode ajustar o capital.

No LP, a empresa minimiza custos em \((L^*, K^*)\). No CP com \(K = K_1\) fixo, atinge a mesma isoquanta mas com custo superior.


Custo Médio de Longo Prazo

Cada ponto da curva \(CM_{LP}\) é o mínimo do \(CTM\) de curto prazo para o nível de capital ótimo correspondente a cada \(Q\):

A curva \(CM_{LP}\) é o envelope inferior de todas as curvas de custo médio de curto prazo.


Economias e Deseconomias de Escala · Isoquantas

Zona Condição Significado
Economias de escala \(CM_{LP}\) decrescente Crescer reduz o custo médio
Escala Mínima Eficiente (EME) Mínimo de \(CM_{LP}\) Dimensão ótima da empresa
Deseconomias de escala \(CM_{LP}\) crescente Crescer aumenta o custo médio

Custos Económicos vs. Contabilísticos

Nota

Os custos usados na análise económica são custos de oportunidade — incluem não apenas despesas de caixa, mas também o valor das alternativas a que se renuncia.

. . .

Consequências importantes:

  • O lucro económico é sempre \(\leq\) o lucro contabilístico
  • Uma empresa com lucro contabilístico nulo pode ter lucro económico negativo (se o capital poderia render mais noutro uso)
  • No equilíbrio de longo prazo concorrencial, o lucro económico é zero — mas a empresa tem um lucro contabilístico normal (cobre o custo de oportunidade do capital)

. . .

Importante

\(\Pi_{econ} = RT - CT_{econ}\) onde \(CT_{econ}\) inclui o custo de oportunidade de todos os fatores, incluindo o capital próprio do empresário.


Exercícios · Isoquantas (1)

Exercício 1 (Escolha Múltipla)

Uma empresa tem \(F(K,L) = 2K^{0.5}L^{0.5}\), \(r = w = 2\), e pretende produzir \(Q^* = 20\). Qual a combinação ótima \((K^*, L^*)\) e o custo mínimo?

(A) \(K^*=5,\ L^*=5,\ CT^*=20\)

(B) \(K^*=10,\ L^*=10,\ CT^*=40\)

(C) \(K^*=20,\ L^*=20,\ CT^*=80\)

(D) \(K^*=10,\ L^*=5,\ CT^*=30\)

DicaSolução · Isoquantas (1)

Resposta: (B)
Isoquanta: \(2\sqrt{KL}=20 \Rightarrow \sqrt{KL}=10 \Rightarrow KL=100 \Rightarrow K=100/L\).
\(CT(L) = 200/L + 2L\); CPO: \(-200/L^2+2=0 \Rightarrow L^*=10\), \(K^*=10\).
\(CT^*=2(10)+2(10)=40\). Verificação: \(2\sqrt{100}=20\) ✓


Exercícios · Isoquantas (2)

Exercício 2 (Escolha Múltipla)

Qual das seguintes afirmações sobre o longo prazo é correta?

(A) No longo prazo os custos fixos são constantes.

(B) O \(CM_{LP}\) é sempre superior ao \(CTM\) de curto prazo.

(C) O \(CM_{LP}\) é o envelope inferior dos \(CTM\) de curto prazo.

(D) No longo prazo a empresa não tem grau de liberdade para escolher \(K\).

DicaSolução · Isoquantas (2)

Resposta: (C)
No LP não há custos fixos → (A) falsa. O \(CM_{LP} \leq CTM_{CP}\) em qualquer ponto → (B) falsa. No LP a empresa escolhe \(K\) livremente → (D) falsa. A curva \(CM_{LP}\) tangencia cada \(CTM_{CP}\) pelo baixo — é o seu envelope inferior → (C) correta.


Exercício 3 (Desenvolvimento) · Isoquantas

Uma empresa tem \(F(K,L) = KL\), com \(r = 4\) e \(w = 9\). Pretende produzir \(Q^* = 36\).

a) Escreva a equação da isoquanta e determine a combinação ótima \((K^*, L^*)\).

b) Calcule o custo mínimo \(CT^*\) e escreva a equação do isocusto ótimo.

c) Verifique a condição de ótimo \(TMST = w/r\).

d) Se no curto prazo o capital está fixo em \(K_1 = 12 \neq K^*\), qual seria \(L_1\) e \(CT_1\)? Compare com \(CT^*\).

DicaSolução · Isoquantas (3)

a) Isoquanta: \(KL = 36 \Rightarrow K = 36/L\).
\(CT(L) = 4(36/L) + 9L = 144/L + 9L\).
CPO: \(-144/L^2 + 9 = 0 \Rightarrow L^* = 4\), \(K^* = 9\).

b) \(CT^* = 4(9) + 9(4) = 36 + 36 = 72\). Isocusto: \(72 = 4K + 9L\), i.e. \(K = 18 - \tfrac{9}{4}L\).

c) \(TMST = K/L = 9/4\) e \(w/r = 9/4\) ✓

d) \(K_1=12\): isoquanta \(\Rightarrow L_1 = 36/12 = 3\). \(CT_1 = 4(12)+9(3) = 48+27 = 75 > 72 = CT^*\). O CP tem custo superior, como esperado.


Síntese · Isoquantas

  • No longo prazo todos os fatores são variáveis — o problema é minimizar \(rK+wL\) sujeito a \(F(K,L)=Q^*\).
  • A isoquanta mostra todas as combinações \((K,L)\) que produzem \(Q^*\) — é análoga à curva de indiferença do consumidor.
  • O isocusto representa combinações de igual custo; a sua inclinação é \(-w/r\).
  • O ótimo ocorre na tangência isoquanta-isocusto: \(TMST = w/r\), ou equivalentemente \(PMg_L/w = PMg_K/r\).
  • Os custos de LP são sempre \(\leq\) custos de CP — no LP a empresa tem mais flexibilidade.
  • A curva \(CM_{LP}\) é o envelope inferior das curvas \(CTM\) de CP.
  • Há economias de escala quando \(CM_{LP}\) é decrescente; deseconomias quando é crescente.
  • O mínimo de \(CM_{LP}\) é a Escala Mínima Eficiente (EME).

Equilíbrio de Mercado e Oferta no Longo Prazo

Revisão: Curto Prazo vs. Longo Prazo

O que muda no longo prazo?

NotaLongo Prazo

No longo prazo, todos os fatores produtivos são variáveis — não existem custos fixos. A empresa tem acesso a todas as combinações de \(K\) e \(L\), e pode ajustar a sua escala de produção.

. . .

Consequência fundamental:

  • Os custos médios de longo prazo são sempre menores ou iguais aos custos médios de curto prazo.
  • A empresa escolhe a combinação \((K, L)\) que minimiza o custo para cada nível de produção.

Custos de Longo Prazo: Intuição Gráfica

  • Cada curva azul: custo médio de curto prazo (capital fixado)
  • Curva vermelha: envelope de longo prazo — o mínimo possível para cada \(Q\)

Economias e Deseconomias de Escala · Equilíbrio LP

NotaDefinições
  • Economias de escala: \(CM_{LP}\) decrescente — escalar a produção reduz o custo médio.
  • Deseconomias de escala: \(CM_{LP}\) crescente — crescer aumenta o custo médio.
  • Escala Mínima Eficiente (EME): o nível de \(Q\) que minimiza \(CM_{LP}\).

. . .

A EME influencia a estrutura do mercado:

  • EME pequena → mercado comporta muitas empresas pequenas (ex.: restaurantes, cabeleireiros)
  • EME grande → mercado tende para poucas empresas grandes (ex.: automóvel, aviação)

Equilíbrio de Curto Prazo — Recapitulação

Equilíbrio de Mercado em CP

DicaRecapitulação

No curto prazo, o número de empresas no mercado está fixo. O equilíbrio determina-se pela interação entre a procura do mercado e a oferta agregada das empresas existentes.

. . .

Condição de equilíbrio do mercado em CP:

\[Q_D(P^*) = Q_S(P^*)\]

. . .

Condição de otimização de cada empresa (tomadora de preço):

\[P^* = Cmg_{CP}(q^*)\]

. . .

Neste equilíbrio, o lucro individual pode ser positivo, nulo ou negativo.

O Lucro em CP como Sinal de Mercado

. . .

Se \(\Pi > 0\): o mercado é atrativo para novos produtores → entram empresas.

Se \(\Pi < 0\): algumas empresas saem (após cobrir custos fixos irrecuperáveis).

Dinâmica de Longo Prazo

Entrada de Empresas: Mecanismo

ImportanteMecanismo de Ajustamento

O mercado em concorrência perfeita ajusta-se automaticamente através da entrada e saída de empresas:

  • \(\Pi > 0\) → entrada de empresas → oferta expande → \(P\) desce → \(\Pi\) diminui
  • \(\Pi < 0\) → saída de empresas → oferta contrai → \(P\) sobe → \(\Pi\) aumenta

. . .

Este processo continua até que nenhuma empresa tenha incentivo para entrar nem sair.

Entrada de Empresas: Efeito no Mercado

  • Entram empresas → oferta expande (\(S \to S'\)) → \(p\) desce → \(q_i\) de cada empresa desce
  • No total, há mais produto no mercado, mas o lucro individual diminui

Condição de Equilíbrio de Longo Prazo

A entrada/saída de empresas cessa quando \(\Pi = 0\).

. . .

Em concorrência perfeita, o equilíbrio de longo prazo verifica:

\[\boxed{P^* = Cmg_{LP} = CM_{LP}}\]

. . .

Interpretação:

  • \(P^* = Cmg_{LP}\): a empresa está a maximizar o lucro (condição de otimização)
  • \(P^* = CM_{LP}\): o lucro económico é nulo (condição de entrada/saída livre)
  • Estas duas condições em simultâneo implicam que a empresa opera na Escala Mínima Eficiente

Equilíbrio de Longo Prazo: Gráfico

Oferta de Longo Prazo do Mercado

NotaCurva de Oferta de LP em Concorrência Perfeita

Com livre entrada e saída, a curva de oferta de longo prazo do mercado é horizontal ao nível de \(P^* = CM_{LP,\min}\).

. . .

Porquê horizontal?

  • Sempre que \(P > P^*\): entram empresas → oferta aumenta → \(P\) desce até \(P^*\)
  • Sempre que \(P < P^*\): saem empresas → oferta diminui → \(P\) sobe até \(P^*\)
  • Portanto, no LP, o mercado só está em equilíbrio com \(P = P^*\)

. . .

A quantidade total de mercado é determinada exclusivamente pela procura — o número de empresas ajusta-se para satisfazê-la ao preço \(P^*\).

Excedente Total no Longo Prazo

DicaExcedente no LP

No equilíbrio de longo prazo em concorrência perfeita:

  • Excedente do produtor = 0 (lucro económico nulo)
  • Todo o excedente económico do mercado é Excedente do Consumidor

. . .

Isto é uma propriedade notável da concorrência perfeita: no longo prazo, os consumidores capturam todo o ganho gerado pela atividade económica.

Ajustamento de Longo Prazo: Choque na Procura

Passo a Passo: Expansão da Procura

Suponha que o mercado está inicialmente em equilíbrio de LP. Ocorre um aumento permanente da procura.

. . .

Passo 1 — CP imediato:

A oferta está fixa (número de empresas fixo). O novo equilíbrio de CP tem \(P' > P^*\) e \(q_i' > q_i^*\). Surge \(\Pi > 0\).

. . .

Passo 2 — Ajustamento LP:

\(\Pi > 0\) atrai novas empresas. A oferta expande progressivamente. O preço desce.

. . .

Passo 3 — Novo equilíbrio LP:

O processo termina quando \(P = P^*\) novamente (se a tecnologia não se alterar e os preços dos fatores são constantes). A quantidade total no mercado é maior, mas cada empresa individual produz \(q_i^*\) (o mesmo de antes).

Ajustamento LP: Gráfico

  • Após choque, CP: \(P\) sobe, \(\Pi > 0\) (ponto laranja)
  • LP: entrada de empresas → \(P\) regressa a \(P^*\), mais empresas no mercado (ponto vermelho)

Exercícios · Equilíbrio LP

Exercício 1 — Escolha Múltipla

Uma empresa em mercado concorrencial tem função de custo total de LP: \[CT_{LP}(q) = q^3 - 6q^2 + 15q\]

Qual é o preço de equilíbrio de longo prazo neste mercado?

  1. \(P^* = 3\)

  2. \(P^* = 6\)

  3. \(P^* = 9\)

  4. \(P^* = 15\)

Exercício 1 — Solução

Resolução:

\[CM_{LP} = \frac{CT_{LP}}{q} = q^2 - 6q + 15\]

. . .

Mínimo de \(CM_{LP}\): \(\frac{d\,CM_{LP}}{dq} = 2q - 6 = 0 \Rightarrow q^* = 3\)

. . .

\[CM_{LP}(3) = 9 - 18 + 15 = \mathbf{6}\]

Confirmação: \(Cmg_{LP} = 3q^2 - 12q + 15 \Rightarrow Cmg_{LP}(3) = 27 - 36 + 15 = 6\) ✓

. . .

No LP, \(P^* = CM_{LP,\min} = Cmg_{LP}(q^*)\)

Resposta: B) \(P^* = 6\)

Exercício 2 — Escolha Múltipla

Continuando o exercício anterior (\(CT_{LP} = q^3 - 6q^2 + 15q\), \(P^* = 6\)). A procura de mercado é \(Q_D = 120 - 10P\). Quantas empresas existem no equilíbrio de LP?

  1. 10 empresas

  2. 15 empresas

  3. 20 empresas

  4. 60 empresas

Exercício 2 — Solução

Resolução:

Quantidade procurada ao preço de equilíbrio \(P^* = 6\): \[Q_D = 120 - 10 \times 6 = 60\]

. . .

Cada empresa produz \(q^* = 3\) no LP.

. . .

Número de empresas: \[n^* = \frac{Q_D}{q^*} = \frac{60}{3} = \mathbf{20 \text{ empresas}}\]

. . .

Resposta: C) 20 empresas

Exercício 3 — Desenvolvimento

Considere um mercado em concorrência perfeita com livre entrada e saída.

A procura de mercado é \(Q_D = 60 - 5P\).

Cada empresa tem função de custo total de LP: \[CT_{LP}(q) = q^3 - 6q^2 + 12q\]

(a) Determine o preço de equilíbrio de LP, \(P^*\), a quantidade produzida por cada empresa, \(q^*\), e o número de empresas no mercado, \(n^*\).

(b) Suponha que a procura aumenta para \(Q_D' = 75 - 5P\). Descreva o processo de ajustamento e determine o novo equilíbrio de LP.

(c) Calcule o Excedente do Consumidor nos dois equilíbrios e comente o resultado.

Exercício 3 — Resolução (a)

Alínea (a): Equilíbrio LP inicial

\[CM_{LP} = \frac{CT_{LP}}{q} = q^2 - 6q + 12\]

. . .

Mínimo de \(CM_{LP}\): \(\displaystyle\frac{d\,CM_{LP}}{dq} = 2q - 6 = 0 \Rightarrow q^* = 3\)

. . .

\[P^* = CM_{LP}(3) = 9 - 18 + 12 = 3\]

Confirmação: \(Cmg_{LP}(q) = 3q^2 - 12q + 12 \Rightarrow Cmg_{LP}(3) = 27 - 36 + 12 = 3\) ✓

. . .

Quantidade de mercado: \(Q^* = Q_D(P^*) = 60 - 5 \times 3 = 45\)

. . .

Número de empresas: \(\displaystyle n^* = \frac{Q^*}{q^*} = \frac{45}{3} = \mathbf{15 \text{ empresas}}\)

Exercício 3 — Resolução (b)

Alínea (b): Choque na procura

A tecnologia não se altera → \(P^*\) mantém-se igual a 3 no novo equilíbrio LP.

. . .

Processo de ajustamento:

  1. No curto prazo (n = 15 fixo): o preço sobe acima de 3, surgem lucros positivos.
  2. Os lucros positivos atraem novas empresas ao mercado.
  3. A oferta expande, o preço desce progressivamente.
  4. O processo termina quando \(P\) regressa a \(P^* = 3\) e \(\Pi = 0\).

. . .

Novo equilíbrio LP:

\[Q'^* = Q_D'(P^*) = 75 - 5 \times 3 = 60\]

\[n'^* = \frac{60}{3} = \mathbf{20 \text{ empresas}}\]

Entraram 5 novas empresas; cada empresa continua a produzir \(q^* = 3\).

Exercício 3 — Resolução (c)

Alínea (c): Excedente do Consumidor

Da procura \(Q_D = 60 - 5P\): inversa \(P = 12 - \frac{Q}{5}\)

\(\Rightarrow\) preço máximo: \(P_{max} = 12\) (quando \(Q = 0\))

. . .

EC inicial (equilíbrio com \(P^* = 3\), \(Q^* = 45\)):

\[EC_0 = \frac{(12 - 3) \times 45}{2} = \frac{9 \times 45}{2} = \mathbf{202.5}\]

. . .

EC após choque (\(P^* = 3\) mantém-se, \(Q'^* = 60\)). A nova procura \(Q'_D = 75 - 5P\) tem preço máximo \(P'_{max} = 15\):

\[EC_1 = \frac{(15 - 3) \times 60}{2} = \frac{12 \times 60}{2} = \mathbf{360}\]

. . .

DicaComentário

O preço não se altera no LP (oferta horizontal), pelo que todo o benefício do aumento da procura é capturado pelos consumidores — o EC aumenta de 202.5 para 360. O excedente do produtor permanece nulo.

Síntese · Equilíbrio LP

Resumo: Equilíbrio de LP em Concorrência Perfeita

Curto Prazo Longo Prazo
Número de empresas Fixo Variável (entrada/saída livre)
Condição de otimização \(P = Cmg_{CP}\) \(P = Cmg_{LP}\)
Lucro económico Pode ser \(\neq 0\) \(\Pi = 0\)
Preço de equilíbrio Pode variar \(P^* = CM_{LP,\min}\)
Curva de oferta Crescente Horizontal
Excedente do produtor Positivo Zero

. . .

ImportanteMensagem-chave

A concorrência perfeita com livre entrada/saída é o único regime de mercado em que, a longo prazo, os consumidores capturam todo o excedente económico e os recursos são afetos à Escala Mínima Eficiente.